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Portugal, minha terra.

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07.01.16

Quero «viver apaixonadamente e morrer a tempo »

aquimetem, Falar disto e daquilo

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 De Barroso da Fonte:

Convivi com Bento da Cruz na Barragem de Pisões na década de sessenta. Em 30 de Junho de 1962 abandonei o Seminário de Vila Real. E, nos primeiros dias de Julho seguinte, fui ali pedir emprego, recorrendo ao Senhor José Cruz que tinha sido primeiro sargento militar e que vivia maritalmente com minha prima, Maria do Carmo, professora do ensino primário. O seu Pai era conhecido pelo «Tio Vicente Terré», de Codeçoso que casara para Gralhós, onde a filha nasceu. Curiosamente veio a ser a professora que preparou para a quarta classe o atual Presidente da Academia de Letras de Trás-os-Montes, António Chaves, que curiosamente foi o maior confidente e biógrafo de Bento da Cruz.

O inspetor José Dias Baptista que foi meu condiscípulo de Seminário em Vila Real, desde o primeiro ano até que o abandonou para casar com a «Mingas», seu amor de sempre, desde cedo se iniciou nos trilhos da escrita e também do Jornalismo, tal como eu e o Bento da Cruz.

O Bento era mais velho (1925) e optou por Singeverga. Acabámos por reencontrar-nos os três, na Barragem de Pisões. A obra que alterou, radicalmente, o coração de Barroso, fez desse estreito da planura mais fecunda das margens do Rio Rabagão, palco do mais populoso acampamento que o amplo concelho de Montalegre teve. No auge da obra que se prolongou por toda a década de 1960/1970 terá sido habitado por cinco a seis mil pessoas, entre trabalhadores e familiares, para o que foi preparado o «bairro definitivo» e as habitações para os quadros superiores e operariado. Às habitações foram adicionadas estruturas essenciais: mercado, escolas, ginásios, piscinas, parques desportivos, albergaria, restaurantes, correios e gabinetes médicos. Após a inauguração os quadros acompanharam a HICA para outras obras; e os tarefeiros e indiferenciados desertaram para onde o destinos os levou: emigração, desemprego ou ocupações domésticas.

O lugar do Pisão foi promovido a aglomerado populacional. Aquele que foi o bairro dos trabalhadores e estruturas de apoio ficou abandonado. Alguns por ali ficaram, à míngua de melhor destino. E do pisão (engenho movido a água) de pisoar o burel das capuchas e mantas caseiras, ficou um sítio geográfico, com direito a paragem das carreiras regulares; o antigo escritório que lhe servia de apoio, virou café; e nas melhores habitações passaram a residir alguns técnicos e famílias que garantem o apoio logístico ao empreendimento.

Como disse atrás, quis o acaso que os três barrosões, fertilizados para as letras pelas águas do mesmo rio, ali nos encontrássemos. O Bento como médico dentista, ao serviço do pessoal da HICA; o Zé Baptista, como professor do ensino primário. Nascera ali perto, na Vila da Ponte, tal como a Mulher e dali nunca quis sair. Eu próprio, como Fiscal da Hica, ali me mantive, até 24 de Janeiro, dia em que ingressei na vida militar, em Mafra.

Inaugurada a albufeira, só o Zé Baptista por ali ficou. Fez-se à vida. Licenciou-se em História e optou por derivar. Cansado de dar aulas, concorreu à Inspeção e atingiu o topo da carreira. Nisso ganhou ao Bento e a mim, porque passou a vida inteira sem sair do berço do país Barrosão.

O Bento radicou-se no Porto, montou consultório e fez aquilo de que gostava. Eu, no regresso da guerra no Ultramar, fixei-me em Chaves e fiz-me à vida. A minhota que ao terceiro noivado me demonstrou as virtualidades míticas da água da mijareta, tendo ela nascido no Centro Histórico de Guimarães, foi colocada em Chaves. Por artes do mafarrico, a responsável pelos Serviços, destacou-a para Montalegre. Casando eu com ela cumpriu na perfeição as virtualidades míticas daquela água, reconfirmadas pelo Padre Fontes.

Acabei por fixar-me em Chaves, onde lecionei, e exerci as funções de chefe de Redação do Notícias de Chaves, semanário, onde colaborava desde 1962. Esta ligação ao mais influente jornal de Chaves, foi passaporte para muitas ramificações que estabeleci com a sociedade, com a cultura e com os amigos que me prenderam à vida e às ocupações que contraí pelos anos adiante. Uma dessas ocupações teve a ver com Barroso e com os Barrosões, nomeadamente com Bento da Cruz que por essa altura acabara de publicar, as Filhas de Lot.

     Depressa me integrei na comunidade Flaviense a ponto de, por concurso público, ser o primeiro funcionário do Centro de Emprego de Chaves que cobria os concelhos da região do Alto Tâmega. Mas foi através do Jornal que tinha como diretor o Prof. Soares Pinto, que pude envolver-me no mundo das artes e das letras. Verdadeiramente só a partir daí contextualizei a vida e a obra de Bento da Cruz que pela sua boca fui informado de que ainda éramos aparentados, por via de meu avô paterno que tinha nascido em Peireses e que cedo emigrou para os Estados Unidos, de onde nunca mais regressou. Infelizmente nunca cheguei a conhece-lo.

Odisseia com as «Filhas de Lot»

Se nos Pisões o meu contacto com o Bento da Cruz não passava do mero cumprimento de cortesia e do respeito mútuo, foi pelos jornais que fui sabendo da sua atividade literária. Ainda jovem adquiri Hemoptise, seu primeiro livro de versos que o autor renegou.

Em 17-2-1968, na rubrica «Tribuna» do Notícias de Chaves o próprio mencionou «o Planalto em Chamas» (1963), como a sua primeira obra. E nunca mais apareceu ao lado daqueles que se seguiram.

Quando, em meados de Junho de 1967, regresso do Ultramar e assumo a coordenação do Semanário, onde eu tinha abertura privilegiada, apercebi-me de que Bento da Cruz e a Família Castro Lopo, proprietária da Gutenberg que já tinha a livraria do mesmo nome e que acabara de comprar o jornal e a tipografia, haviam acordado executar, graficamente, o seu terceiro livro a que chamou Filhas de Lot, com o compromisso do Jornal proceder à sua divulgação. Ao contrário dos dois livros anteriores e dos posteriores que foram confiados, quer na edição, quer na distribuição a empresas com experiência, este terceiro romance apareceu no mercado com edição do autor.

Na edição de 15 de Abril de 1967 aquele semanário dava uma notícia breve nos seguintes termos:

É posto à venda na próxima sexta-feira o novo livro de Bento da Cruz «Filhas de Lot». Esta obra é distribuída pela papelaria Gutenberg. Durante a manhã de Sábado o autor dará uma sessão de autógrafos.

Ora a qualidade gráfica dessa edição fora pouco cuidada. A Gutenberg funcionava bem como gráfica, mas não como distribuidora. E daí que esse terceiro livro não tivesse a difusão que se esperava. Os poucos exemplares que se distribuíram circularam na zona do Alto Tâmega, entre pessoas e classes sociais que quiseram certificar-se do seu conteúdo. Ou então expedidos por correio, na sequência de pedidos formais à Gutenberg. Era usual, à época, o autor enviar dois exemplares a jornais que costumassem noticiar a saída. Um exemplar destinava-se à biblioteca desse jornal e o outro ao crítico que o lesse para redigir uma nota, habitualmente breve.

Como trabalhei nessa tipografia até 1975, acompanhei esse processo e pude ver exemplares dessa edição, por ali acantonados, entre tintas e papéis velhos. Presumi que, pior do que o trabalho gráfico, terá sido a deficiente distribuição. Verdade é que foram dois recensores do Jornal de Notícias: José Viale Moutinho e Ramiro Teixeira que se incumbiram de recensear e promover esse autor e a sua obra. Coordenavam eles o sector das referências aos livros que chegavam à redação desse matutino. E já por essa altura o pendor ideológico influenciava o panorama cultural.

   Bento da Cruz que em Singeverga alicerçara a sua bagagem linguística e literária nos grandes clássicos latinos e que sempre estigmatizou o drama social das gentes de Barroso, em tudo o que produzia, fez dessa veia interior, o íman de toda a sua obra que dilatou, numa série de romances que o catapultaram para tronos que nem sempre foram consensuais.

Ao mérito do autor que arrastou consigo uma peculiar forma de narrar factos, de criar ambientes e de lhes adicionar tiques condizentes com os cenários bucólicos, num mundo original como são as Terras de Barroso, acresceu o fator político. Os seus parceiros de ambientes urbanos, viram nele predicados estilísticos que aos próprios faltavam. Deram-se bem nos secretos sínodos que sempre existiram nas sociedades em evolução apressada.

A revolução de Abril operou-se quando Bento da Cruz mais precisava de clarificação para o seu rumo editorial. Todos os fatores se conjugaram nele e na sua obra. Tinha ela pernas para andar. A temática social era propícia. Antropologicamente as terras de Barroso eram propícias à sementeira. O linguarejar prestativo. A etnografia apropriada. Enfim, à experiência rural só faltavam os meios: clima ajustado à fertilização, os adubos para o crescimento e o estendal para o sequeiro.

Nada disso faltou a Bento da Cruz. Foi deputado à Assembleia da República, a Editorial Notícias e a Âncora compensaram alguma ineficácia da Gutenberg. A crítica nacional correu de feição. A autarquia natal funcionou como a Santa Bárbara em dias de trovoada. Por acréscimo vieram os mimos sociais: a perpetuação do seu nome na maior Escola pública do concelho, uma avenida e respetiva travessa na sede de concelhia, um busto em bronze artístico e um anunciado centro cultural que ficará para a próxima revolução.

Ao mérito inegável de Bento da Cruz correspondeu a mais importante de duas vertentes: a sorte e o azar. Esta bidimensionalidade faz parte da vida de qualquer pessoa. E acontece todos os dias. Um avião cai e morrem todos os passageiros. Logo se vem a saber que mais um passageiro se destinava àquele voo. Mas perdeu o avião e não embarcou. Na praia do Meco: morreram 6 naquela praxe académica. Mas eram sete. Um salvou-se. Num sismo morrem centenas. Uma semana depois há uma criança, um velho que sobrevive. Logo se fala em «milagre».

Sejamos claros: para tudo na vida é preciso ter sorte. Bento da Cruz foi, inegavelmente, um bom contador de estórias. E por isso ficou na História de Barroso. Mas a sua maior sorte foi ser um ideólogo de esquerda, ter criado um jornal que foi a voz dessa esquerda, ter a seu lado a imprensa da esquerda e o apoio editorial para dar voz a esse ideário. Digamos que foi tão sortudo como bom romancista. Também no desporto não há campeões sem sorte.

Contraponto e Descoberta na obra de Bento da Cruz

A amizade pessoal que Bento da Cruz granjeou com a sua radicação no Porto e sobretudo, graças à sua ideologia política que nessa altura era fator decisivo, o autor de Filhas de Lot, viu compensado o erro de fazer uma edição de autor, ao ter o apoio incondicional de dois críticos influentes não só no JN, onde trabalhavam, mas também noutros órgãos de influência da mesma área. A esquerda ideológica estava organizada e era solidária, fosse na maçonaria, fosse na Seara Nova, na Sedes, na Opus Dei, fosse em tertúlias de cariz cultural, económico, religioso e, sobretudo, político.

Exemplo claro desse apoio literário foi a entrevista que José Viale Moutinho assinou no JN e que o Notícias de Chaves transcreveu ipisis verbis na edição de «Sábado, 22 de Abril de 1967».A essa entrevista chamou Viale Moutinho «Contraponto e Descoberta» Este diálogo com Bento da Cruz é ilustrado com uma foto do próprio, fumando cachimbo.

A dado passo afirma Viale Moutinho:

-Estamos em 1967, Bento da Cruz escreveu «Filhas de Lot». Outro romance que saiu da tipografia e está fresco, nas montras das livrarias.

-   A história de Lot e suas filhas vem no Génesis, capítulo 12, versículo 30 e seguintes. Outro conto: o de duas raparigas e um rapaz perdidos numa aldeia barrosã. Um rapaz culto, flagelado por todas as tentações da carne e algumas do espírito, ateu e profundamente religioso; uma professora fiel às crenças familiares, muito digna moral e uma enfermeira para a qual, em costumes e religião tudo está bem, desde que possa gozar a vida e fruir o amor – uma existencialista a seu modo e no seu meio. Para lá da «casa escola», ficam as amaldiçoadas terra de Sodoma e Gomorra, neste caso, as terras arcaicas do Barroso, particular Gostofrio, cujos habitantes passam e perpassam no olhar da professora debruçada à janela».

- Qual é o trajeto em «Planalto em Chamas» e «Filhas de Lot»?

- O trajeto, inevitável e ascendente da minha evolução de ficcionista. É natural que eu me tenha esforçado por corrigir em Filhas de Lot erros dados em Planalto em Chamas e em ao Longo da Fronteira. Talvez haja mesmo duas ou três personagens do «Planalto» reconhecíveis em Filhas de Lot, caso do pastor de ovelhas: primeiro pastor de ovelhas, depois pastor de almas.

 

     O meu herói é aquele que nunca pegou em armas

António Roque e José Luís Sarmento coordenaram ao longo de quase um ano, entre 1967 e 1968, na 2ª página do Notícias de Chaves uma rubrica a que chamavam Tribuna

Essa secção tinha 13 perguntas de algibeira: a resposta à primeira usei-a em título desta nota necrológica.

À quarta perguntava-se:

- diga-nos a sua opinião sobre o amor.

Bento de Cruz respondeu: - «...amor super omnia. Só per ipsum, et cum ipso, et in ipso, o homem vivit, regnat et inundat per omnia secula seculorum. Amén!»

À sétima pergunta:

- que mais detesta no homem ?

- a hipocrisia!

Como se vê Bento da Cruz era parco e incisivo nas respostas. E demonstrava que sabia latim. Mesmo quando interrogado acerca de um tema universal e intemporal. O investigador desta vida e obra terá que rebuscar perto de casa, as minúcias que pouco representaram no processo de criação literária que após a sua morte, tiver de fazer-se, para o bem e para o mal.

Esta ideia do seu amigo e compadre Zé Baptista é a primeira e aparece por volta dos 91 anos do seu nascimento. A um ano de distância ainda está fresca a sua partida. Uma das suas bandeiras parou com a sua morte. O Jornal Correio do Planalto. Durante 40 anos foi sobrevivendo e alimentando o fogo de uma fação ideológica. Ajudou a muitos, contestou bastantes e silenciou-se naturalmente, como obra humana que é.

   Tendo sido vetado como colaborador, meses depois do seu aparecimento e zurzido uma vez por outra por razões ideológicas, nem por isso o hostilizei. Orgulho-me – isso sim - de ter encadernado em sete volumes, por ordem cronológica as quase setecentas edições que produziu ao longo dos seus 40 anos de vida. Entendi e continuo a entender que um jornal é uma privilegiada fonte da história local. Este e todos os demais que se publicaram em Montalegre, desde 1950 e também na região do Alto Tâmega, tive o cuidado de juntá-los à minha bagagem pessoal. Alguns foram para Angola, voltaram comigo, levei-os para Chaves e acompanharam-me para Guimarães. Aqui gastei muitas noites e muitos fins-de-semana a ordená-los por títulos, por datas e por anos. No meio de cerca de cerca de 700 edições faltaram poucos: ou porque se extraviaram no correio, ou porque foram confundidos entre outros papéis inúteis. Tive o cuidado de manuscrever no princípio de cada encadernação os números que faltam. O que digo do Correio do Planalto digo dos restantes Jornais que houve em Barroso nestes cerca de 75 anos de vida. Fiz entrega dessas coleções, tratadas com todo o carinho, durante a Última Feira do Livro em Montalegre. A sua responsável preparou-lhes uma estante e ali podem ser consultados em conformidade com as regras da Biblioteca.

Penso que será uma das valências mais utilitárias a quanto gostarão de saber o que de mais importante se passou em Terras de Barroso.

Os biógrafos de Bento da Cruz não poderão prescindir dessa consulta. A sua vida e obra, os altos e baixos da vida política, as alegrias e tristezas eleitorais, a vida comunitária passam, obviamente pela consulta dessas coleções.

Ainda agora para afirmar o que deixo dito recorri às coleções do Notícias de Chaves e à Voz de Chaves para encontrar a colaboração de Bento da Cruz. Não só em folhetins das Filhas de Lot, mas também artigos soltos sobre temas vários. Diversos, por exemplo, sobre o Mosteiro de Santa Maria de Pitões das Júnias.

São mais umas trinta coleções dos periódicos de Chaves, de Boticas, de Vila Pouca de Aguiar, de Valpaços, da Régua. Se a Câmara de Montalegre manifestar interesse, poderão reforçar aquele lote de 75 que já ofereci, em Junho de 2015. O que se oferece deve ser valorizado, desejado e franqueado aos utentes. Já que o restante espólio que ofereci em 9 de Junho de 2011 e que ficou registado em ata de câmara de O7/01/2013 e que foi referenciado, em edital nº 04/2013/DAGF, pago ao Correio do Planalto, como publicidade institucional, na edição 650, não deu entrada, por falta de verbas para o acolher nas condições que haviam sido acordadas pelo Executivo anterior.

 

O meu testemunho final

Para acalmar alguns leitores que, ao longo da minha vida ativa, acompanharam as minhas discordâncias em relação a Bento da Cruz deixo aqui identificado o artigo que assinei no Notícias de Chaves em 5 de Agosto de 1967, com o título: Bento da Cruz – apelida-se escritor do sétimo dia, mas ele é, para além da má vontade de muitos, um dos maiores romancistas do nosso tempo.

Imediatamente a seguir a esse título e subtítulo que proclamei, no distante ano de 1967, sobre Bento da Cruz e sua obra até aí produzida, afirmei o que pode ser lido naquele original, quando eu ainda não era coordenador redatorial. Disse mais o seguinte: nascido no coração de Barroso, é Barrosão dos pés à cabeça; e embora ameaçado, como ele confessa, por cartinhas de amigos que o aconselham a mudar de terra para não ser deslombado por causa das suas fábulas a respeito de Barroso, não muda mesmo de terra, nem se faz apátrida. Ele é o que é e, para além da má vontade de muitos, é Bento da Cruz um dos grandes romancistas da sua geração. Por que nascemos e somos partidários do mesmo sentimento bairrista; por que nos banhámos nas águas do mesmo rio e rasgámos as calças de pastor nos mesmos penedos; porque vemos a realidade implantada na mesma cozinha de Gostofrio – a Arca de Noé -; por que conhecemos a relação dos mesmos seres humanos, dos mesmos animais e do recheio da natureza rural... Por que vivemos os mesmos problemas, da fome, do frio, da batata, da emigração, da guerra e do abandono; e sobretudo por que nascemos com o destino marcado de repórteres da mesma realidade social, não condenamos, antes aplaudimos a denúncia que Bento da Cruz expõe nas Filhas de Lot.

Sabemos que o Povo de Barroso não gostou do livro. Melhor: o livro foi mal recebido porque põe em contraste duas classes sociais dominantes: o Padre e a Professora. E crente como é, o povo desta Terra para quem o Padre é uma espécie de ente super-humano, ofende-se com tudo o que for contra a sua dignidade.

A terminar esse testemunho em defesa de Bento da Cruz quando, a propósito das Filhas de Lot, houve reações violentas contra ele pelo descrédito em que envolvia o clero e as docentes da região, exarámos nesse artigo: sabemos ser com mágoa que Bento da Cruz afirmou perante as «cartinhas dos amigos que o aconselhavam a mudar de terra para não ser deslombado.» Fez saber o polémico autor que «deixaria os barrosões em paz, não por medo ao estadulho mas por se convencer de que não vale a pena gastar cera com fraco defunto».

Nós que acabáramos de chegar da guerra e que nos conheciam como referencial de defesa das gentes da Região Barrosã, poderíamos ter aproveitado o ensejo para incendiar a fogueira. Fizemos o contrário. Preparámos esse artigo que existe e comprova: «se os nossos conselhos de algo podem contar, pedimos a Bento da Cruz que não dê ouvidos a esses fracos defuntos, porque desistir é próprio dos fracos e dos fracos não reza a história». Volvidos 49 anos, apesar das altercações sociais, culturais e políticas que envolveram a sociedade, por motivo da mudança de regime que caluniou aqueles que não lhe bateram palmas, antes foram vítimas de algumas dessa euforias exacerbadas, como foi o meu caso, tendo razões para expressar as injustiças de que fui alvo, ontem e hoje, em vez de trazer aqui um desabafo de desforra, entendo ser mais coerente, reproduzindo parte daquilo que escrevi e afirmei, quando dispunha do Jornal que coordenei até 1975 e outros nos quais, colaborei nos 63 anos de militância jornalística a sério.

  

24.11.15

Poesia, amoras & presunto livro de poemas recebe Prémio Tartaruga

aquimetem, Falar disto e daquilo

 

 

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À volta de Barroso da Fonte:

"No próximo dia 28, sábado, pelas 16 h decorrerá no Ecomuseu em Montalegre a apresentação do livro: Poesia, amoras & presunto, comemorativo das bodas de ouro do Poeta de Barroso da Fonte.

Em Junho passado este escritor e jornalista Barrosão foi homenageado pela Câmara, conjuntamente com o seu colega de Seminário de Vila Real, José Dias Baptista. Os mesmos autores já dia 25 de Abril deste ano haviam sido distinguidos pela Câmara Municipal de Vila Real. E em Boticas, durante o IV Encontro do Fórum Galaico- Transmontano e, em Vizela, pela Tertúlia dos Amigos da Rádio voltou Barroso da Fonte a ser publicamente a ser aplaudido em sessões muito participadas.

Desta vez voltará a ser homenageado pela Editora Tartaruga que lhe atribuiu «o prémio nacional de Poesia, Fernão de Magalhães Gonçalves». Esse prémio consiste em ser a Editora a editar uma obra do homenageado e a promover as apresentações que tiverem anuência, em cada sede de concelho ou instituição no ano de 2015. A Câmara de Montalegre, por ser Barrosão o celebrado, é a primeira a ter essa honra, já com a certeza de que ofertará um exemplar do livro a cada participante na sessão que terá lugar pelas 16 horas de Sábado, dia 28.

António Chaves, presidente da Direcção da Academia de Letras de Trás-Montes, apresenta o livro que foi chamado Poesia, amoras & presunto.

A Câmara estará representada pelo vice-presidente, Dr. David Teixeira e Drª Fátima Fernandes, vereadora da Educação.

De recordar que o homenageado nasceu em Montalegre, em 1939. Frequentou o Seminário diocesano de Vila Real, entre 1952 e 1962. De 1962 a 1964 foi funcionário da Hica na Barragem de Pisões. Seguiu-se o cumprimento do serviço militar em Angola (1965-1967), como oficial Ranger.

No regresso fixou-se em Chaves, como professor Eventual do antigo Liceu. Fundou e dirigiu o Centro de Emprego dessa cidade (1968-1975). Por transferência fixou-se em Guimarães, terra onde constitui família. Licenciou-se em Filosofia na UC entre 1977-1982, ano em que foi requisitado ao IEFP (Instituto de Emprego), para assumir a direcção da Delegação do Norte da Direcção-Geral da Comunicação Social. Em 1985 regressou a Guimarães e, no ano seguinte, foi convidado a integrar o executivo da Câmara, como vereador. O Partido pelo qual se candidatou venceu, pela primeira vez as eleições, pelo que cumpriu esse mandato de 4 anos, com os pelouros do: pessoal, serviços administrativos, cultura, desporto e, desde 1988, também o Turismo.

Em Fevereiro de 1990 regressa ao Centro de Emprego como técnico superior principal. Mas em Setembro seguinte é nomeado director do Paço dos Duques de Bragança e do Castelo da Fundação, até que em Agosto de 1995, a seu pedido, se aposentou. Ainda voltou à Universidade do Minho onde fez o mestrado e preparou durante os cinco anos curriculares a tese de doutoramento sobre Alfredo Pimenta que foi editada em 2005 sobre a « Alfredo Pimenta – da práxis libertária à doutrinação nacionalista». Entre 1998 e 2005 leccionou no Instituto de Estudos Superiores de Fafe, a disciplina de «animação no contexto educativo». Simultaneamente fundou e dirigiu o jornal a Voz de Guimarães que chegou a ter a maior tiragem de entre os sete que no concelho se publicavam. E para apoio a esta e a outras valências, fundou a Editora Cidade Berço.

OBRA EDITADA

Em prosa e verso publicou nos 50 anos de vida literária que este ano tem vindo a comemorar, cerca de 60 livros, nove dos quais em poesia. Em prosa, privilegiou a etnografia, a antropologia, a monografia e a história. O Pensamento e a obra de Alberto Sampaio resultou do Mestrado. E Alfredo Pimenta: da práxis libertária à doutrinação nacionalista, foi trabalho dos cinco anos de investigação para doutoramento. Já teve duas edições. Entre 1990 e 2011 liderou a polémica entre A. de Almeida Fernandes e a tradição que defende ter Afonso Henriques nascido em Guimarães, em 25 de Julho de 1111. Esse medievalista sempre defendeu essa tradição, até que, no declarado intuito de puxar esse nascimento para Viseu, «minha pátria distrital», urdiu a teoria de que, afinal, o Rei Fundador teria nascido em Viseu, em 5 ou 6 de Agosto de 1109. Para que essa sua teoria pudesse bater certo com os seus intuitos, negou a existência do Condado Portucalense, alegando que D. Teresa sempre viveu em Viseu, com base numa escritura que ali teria ocorrida em 5 de Agosto de 1109. Para seu desgosto essa escritura havia ocorrido em Coimbra em 29 de Julho desse ano.

Nessa polémica nacional entrou (mal) a Academia Portuguesa de História, cuja presidente chegou a anunciar aos canais televisivos, em Setembro de 2009, que iria providenciar para mudar os manuais escolares. E a própria, com a chancela daquela Instituição Histórica, coordenou a edição de 34 pequenos volumes comerciais, referentes aos 32 reis e 2 rainhas, impingindo essa nova teoria que num debate público, em Dezembro seguinte, levou José Mattoso a demarcar-se dessa e de qualquer alteração ao que até ali se defendera, porque nenhuma prova consistente foi encontrada.

Barroso da Fonte refutou esse cisma histórico, em 2009, com o livro Afonso Henriques – Rei Polémico e (re)confirmou essa refutação em 2011, com os 900 anos do nascimento de Afonso Henriques: 1111 – 2011.

João Pedro Miranda – in: Noticias do Barroso”.

 

02.09.15

Fusão dos jornais locais: estaria de acordo se...

aquimetem, Falar disto e daquilo

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De Barroso da Fonte:

"Bento Monteiro pseudónimo que não consigo identificar, mas que vem clarificando muita coisa errada que por cá se passa e se exerce, descaradamente, sem que haja consequências para os seus autores, escreveu no quinzenário Notícias de Barroso de 17 de Agosto, mais de meia página, com verdades como punhos. Os pecadilhos que aborda já vêm de longe e resumem-se a fundamentalismos bacocos que seria fácil ultrapassar se não vingasse o ditado popular: «quem está com o poder come, quem não está nem come nem cheira». Esta prática já vem do Estado Novo. Mas extremou-se com os excessos democráticos ao longo dos quarenta anos de regime que levamos, cada vez mais corrompido e generalizado.

Na minha longa carreira de jornalista (a caminho de 63 anos) de militância ativa, combati muito atrevimento, incomodei muito político (antes e depois da revolução de Abril), denunciei muita pulhice. Já fiz alguns desses registos no livro 60 anos de jornalismo de causas e casos (2013). Mas nunca é excessivo repisar. Porque uma das maiores virtudes deveria ser a equidade social. E cada vez ela ganha mais terreno.

Algumas dessas arbitrariedades políticas tiveram consequências imediatas. Cito a denúncia que fiz no Jornal Notícias de Chaves, de 9 de Maio de 1970, quando assinei o artigo: «Procuram-se 100 contos». A República transcreveu esse artigo que acusava a Câmara de Chaves de pagar 170 contos por um carro do lixo, quando esse carro, fora reconstruido há sete anos. E não valeria, agora, mais de 70. O carro recolheu ao armazém, o negócio foi desfeito e a Câmara recuperou os 100 contos. Estávamos no auge do chamado «fascismo».

Um segundo caso passou-se com a Universidade do Minho. Foi criada por Veiga Simão, em 1973. O ministério encomendou o projeto da sua localização à Profabril que apontou o Campus universitário das Taipas, no concelho de Guimarães. Distava a 17 km da cidade de Braga. Na altura Braga era o dormitório de Guimarães e usufruía da influência dos seus gestores políticos. A verdade é que quando tudo estava a postos para iniciar as obras, de acordo com o parecer técnico, eis que as obras começam com o restauro de um velho edifício no Largo do Paço, na Rua do Souto, em Braga. Acabara eu de chegar a Guimarães, já na altura como correspondente do JN, funções que ai prossegui até 1982. Passei a escrever semanalmente no Notícias de Guimarães «os temas ao acaso». Nesses e noutros jornais fui aflorando «o assalto» que as politiquices fizeram à cidade, onde vivo e da qual vim a ser Vereador, a tempo inteiro e deputado Municipal. Durante doze anos, quer na CM quer na AM, sempre lutei contra esse tipo de arbitrariedades. A UM moveu-me um processo judicial que levou 6 anos a organizar. Quando já tinha julgamento marcado, tive conhecimento de que o Presidente da Comissão Instaladora da UM, tinha (ele) 2 processos, no TIC de Braga, tão melindrosos que se encontravam em segredo de Justiça. Nessa altura e, por esse motivo, o meu julgamento foi adiado sine die, isto é, até que fossem julgados aqueles dois. Como nunca foram julgados, aquele que era contra mim foi arquivado e o julgamento nunca se fez. Tive pena porque muitos catedráticos que vieram a ser, nunca lá teriam chegado. O tal arguido que me mandou processar, foi transferido para o Algarve. E lá morreu.

Já na Câmara de Guimarães e como responsável dos Serviços Administrativos e do pessoal descobri uma fraude que durava desde 1974 e que já tinha custado 25 mil contos, atribuídos a 2 guardas campestres, fictícios, que eram promovidos, tinham férias, assistência médica etc. Descobriu a fraude em 1986. Três anos depois, dois guardas florestais que haviam sido aliciados, foram condenados a 18meses de cadeia, com pena suspensa. Com denunciante e representando da Câmara lesada, fui ouvido em julgamento. Nesse local, onde nunca havia estado e nunca mais estive, pude depor: Senhores Juízes: estes guardas florestais não têm culpa dos milhares de contos deitados fora. Eu gostava de ver aqui, nos seus lugares, os responsáveis que, como chefes e decisores políticos, criaram e mantiveram tal situação durante 13 anos.

Um desses autarcas ainda recentemente recebeu uma comenda das mãos do Presidente da República.

Se tiver saúde e vida escreverei tudo isto, em próximos tempos, para memória futura.

Retomo as afirmações de Bento Monteiro exaradas na página 5 da última edição de Notícias de Barroso.

Tenho moral para o afirmar publicamente, mesmo que continue a figurar na lista negra pela qual passei muitos anos. De resto não me dei bem com o exercício partidário. E, em 2011, desfiliei-me por razões culturais, do partido pelo qual fui eleito. Entre 1984 e 2009 assisti a muita injustiça, muita subjetividade e muita hipocrisia. Nunca esse partido tinha ganho ou voltou a ganhar as eleições em Guimarães.

A experiência que fiz nessa câmara, com 11 vereadores, com 14 milhões de contos de orçamento anual e com uma oposição verrinosa que apenas moderou os ímpetos quando lhe foram distribuídos pelouros, fez-me ver que a política usa truques que serve muitos, mas desagrada a muitos mais. Percebendo que a impunidade democrática, em política de nível rastejante, vale mais do que todas as boas intenções, decidi produzir despachos que vigoraram quatro anos. Dois deles tiveram a ver com o apoio a autores e artistas e também com os critérios de distribuição de publicidade a jornais, a associações concelhias e a obras de raiz. Ninguém contestou. Se fossem aplicadas pela Câmara de Montalegre, Bento Monteiro, não teria razões para escrever o justo reparo que fez e que tem a máxima oportunidade. Nesse artigo, transcreve Bento Monteiro uma afirmação de Orlando Alves na última AM: «não espero nada da imprensa local, uma vez que os 3 são todos demasiadamente politizados. Deveriam fundir-se num só, onde todas as forças tivessem a oportunidade de se expressar». O Presidente da Câmara reconheceu que os três jornais do concelho de Montalegre são todos iguais, dando voz à opinião partidária que cada um proclama. O que não disse é que dois são pagos por aqueles que os escrevem, os pagam e têm que os fazer chegar aos seus leitores. Mas só um e, por sinal, o mais politizado e o pior dos três, recebe toda a publicidade institucional da Câmara, subsídios em horas de crise e colaboração técnica de funcionários municipais. É essa a réplica de Bento Monteiro, o que corresponde àquilo que sempre se passou com esse órgão oficioso do partido que gere a Câmara desde que Carvalho de Moura perdeu a presidência. «O que nos deve preocupar a todos – afirma Bento Monteiro – é a forma como os dinheiros públicos são aplicados e que muitas vezes favorecem «apenas os nossos».

Como autarca com essa responsabilidade, deparei-me, em 1986, com o mesmo tipo de tratamento na Câmara de Guimarães, (urbana de 1ª classe e com dimensão 15 vezes maior). Em 21 de Abril de 1986 redigi e ordenei a aplicação imediata: «no fim de cada ano todos os cinco jornais do concelho terão que beneficiar de montantes aproximados de publicidade distribuída pela Câmara». Durante 4 anos, essa matéria foi cumprida rigorosamente e não houve quaisquer reclamações. Foi a igualdade de tratamento que falou mais alto, fossem de direita, de esquerda ou de centro. Proceda Montalegre (e todas as autarquias e governo) do mesmo modo e acabará com essa falsa maneira de aplicar a democracia a todos os cidadãos, sejam de esquerda, de centro ou de direita. Em política séria não vale tudo".

 

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