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De Barroso da Fonte

Quem era vivo e tem a memória fresca lembra-se da música dos anos sessenta, durante a guerra do ultramar «Angola é nossa». De resto havia duas canções com o mesmo título. Mas com letra e música diferentes. Ambas muito conhecidas, ritmadas, muito persuasivas e muito empolgantes. Ninguém ficava indiferente à música e à letra. Sobretudo nas rubricas radiofónicas de discos pedidos, tanto uma versão como a outra, eram das mais requisitadas pelos ouvintes, quer em Angola, quer no Continente. Logo após a autonomia das Províncias Ultramarinas, uma e outra versões foram silenciadas, deixando de ouvir-se. Uma dessas versões tinha música e letra do Padre Ângelo do Carmo Minhava, natural de Ermelo, concelho de Mondim de Basto. Este sacerdote Transmontano nasceu em 15 de Janeiro de 1919 e faleceu dia 2 de Dezembro em curso. Foram 97 anos de vida cheia, de entrega aos outros que foram todos aqueles que com ele se relacionaram, que com ele aprenderam nas aulas e cumpriram as normas religiosas.
Ordenou-se no Seminário de Vila Real, em 1942. Desde cedo se dedicou à arte musical e poética, lecionando, formando tunas e orfeões e regendo esses agrupamentos, quer no antigo Liceu Camilo Castelo Branco, na Escola de S. Pedro, no Instituto Politécnico de Vila Real (mais tarde UTAD), quer no próprio seminário a que pertenceu como aluno e mais tarde, o resto da vida, como professor. Foram seus alunos e vários e conhecidos maestros, como José Luís Borges Coelho, Altino Moreira Cardoso, Prof. Magalhães. Padre Branco de Matos.
Foi professor de latim, Francês, Literatura e, obviamente, música. Em 1947 escreveu e publicou o poema herói-cómico – Lírico Cabrilíada. Editou vários outros livros sobre literatura e boas maneiras de falar e de conviver em sociedade. Foi autor de muitas marchas, entre as quais de: Vila Real, Montalegre, Régua, Boticas, Ribeira de Pena, Pensalves, Pontido, Lagoaça. Hino do Regimento Militar de Chaves e de vários regimentos que prestaram serviço no Ultramar. Com letras do autor desta nota, musicou os Hinos das Casas Regionais de Trás-os-Montes de: Guimarães e do Porto; o soneto «Para meu Pai» e o poemeto «Da terra nasce o amor».
O que fica para além da morte do Padre Minhava, depois de 97 anos de vida, são a bondade, o saber o exemplo cívico. Resta seguir as linhas mestras que o Padre Minhava nos incutiu.
Falo por mim que fui seu aluno durante dez anos. Foi meu maestro, meu complemento em coisas que têm a minha assinatura, mas precisei da dele; e, em cultura, que muito me ensinou e que, por culpa minha, tão pouco aprendi.
Perdemos todos os Transmontanos, muitos portugueses e a sociedade, em geral, um dos mais lúcidos, mais sólidos e mais coerentes cidadãos do nosso tempo. Quase um século de uma convivência proveitosa, porque viveu para os outros e não me parece que tenha vivido para si. Permita-me o leitor que fale na primeira pessoa. Há notícias que se escrevem e que podem gerar incomodidades. Mas quando se fala de alguém, como foi o Padre Ângelo do Carmo Minhava, fica-se, com a quase certeza, de que falamos de um ser humano, verdadeiramente exemplar.
Conheci-o em 1952, como meu professor de música. Nunca fui bom aluno em nada, nem sequer em música. Em dez anos solfejei, cantei e até regi algumas vezes, mas só nas aulas e entre colegas. Fui barítono por escolha sua. Nessa condição cheguei a ir, integrado no seu orfeão, atuar aos estúdios da Rádio Alto Douro. Penso que era um brinquedo para o (depois, meu amigo) Carlos Ruela. Era um privilégio nesses tempos, em que não havia estúdios, nem televisões. Mas, de facto, apenas fiz letras que (os hoje maestros) José Luís Borges Coelho e o Altino Moreira Cardoso, musicaram.
Por não conseguir musicar, sinal de que aprendi pouco, em dez anos, tive a rara satisfação de ver quatro poemas meus musicados pelo Mestre de nós os três. Pela vida fora foi lendo os meus escritos em jornais e em livros, em prosa e em verso,que produzi em mais de meio século. Sempre me escrevia a agradecer e a felicitar; e, algumas vezes, a puxar as orelhas, por excessos de linguagem ou discordâncias formais. Recordo que numa entrevista a Gil Silva e a Paulo Mourão ao programa «Perfis -Transmontano sem preconceito», questionado sobre - «o que tem a dizer sobre Pires Cabral, António Cabral e Barroso da Fonte, respondeu assim: - «embora discorde, por vezes, de certas efabulações do escritor Pires Cabral, reconheço nele um escritor de muito mérito... O dr. António Cabral é, desde jovem, vocacionado para as letras. Barroso da Fonte, idem, por vezes bastante conflituoso, mas frontal e grande patriota». Nunca me reconheci tão bem caraterizado. De Ângelo Minhava fica, para além da morte, aquilo que todos nós deveríamos deixar: erudição, obras e exemplos de toda a natureza. A imprensa regional já noticiou o seu desaparecimento. Na imprensa diária, a começar pela RTP que se proclama de serviço público, ainda nada vi, nem ouvi, de entretida que anda com o futebol, com guerras de alecrim e de manjerona e com vedetas vazias de tudo, a não ser a espuma que lhes tapa as mazelas. Espero que o poder político distrital, desde Mondim de Basto a Montalegre, desde Vila Real à Régua, de Chaves a Lagoaça, saiba perpetuar o nome e a obra deste Transmontano do tamanho das Fisgas de Ermelo e do simbolismo intelectual do Douro. Há homens do tamanho do mundo como o Mons. Ângelo Minhava que só aparecem e desaparecem de século a século.

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publicado às 22:16

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Por: Barroso da Fonte;

Só dia 13 de Setembro choveu neste verão de 2016. Um verão anómalo, tórrido e com menos sombras, porque os incêndios em Portugal passaram a medir a temperatura económica, política e social. Infelizmente custou muitas vidas, de pessoas e de animais, já que na florestação é impossível contabilizar a área reduzida a cinzas. Empobreceu o país, avaliou-se a degradação social.
Para esquecer este miserabilismo aconselhamos a leitura destes livros:

Conheces SANCHO ? A académica Maria Helena Ventura é autora de 19 títulos: sete em poesia, doze em de ficção e um infantil. Alguns dos romances históricos fazem parte da colecção «A História de Portugal em Romances -900 anos de histórias», contadas pelos melhores romancistas históricos. Este volume de 368 páginas ocupa-se de D. Sancho II, bisneto de Afonso Henriques. Baseando-se numa investigação cuidada, Maria Helena Ventura descreve-nos a biografia de uma das personagens mais desconhecidas da História de Portugal. No subtítulo a romancista demonstra que os mouros guerreavam D. Sancho II. Os nobres e o clero traíam-no. E o próprio irmão lhe cobiçava o trono. Neste último romance de Maria Helena Ventura, decorre a vida de uma das figuras mais trágicas e misteriosas as História de Portugal. A história de Portugal em Romances, com o selo da Saída em emergência, começa a impor-se como modelo de sucesso. Bem anda Maria Helena Ventura que marcou um ritmo certificado para, através de uma escrita efervescente, «dar a conhecer a História de uma pequena nação que sonhou ser valente e imortal».

A Bombarda de Banastarím - seis capitães e outros mais em terras da Índia Portuguesa em meados do século XX. É este o título do mais recente livro do Tenente- General José Lopes Alves
que nasceu em Lagoas, no concelho de Valpaços (1924) e vive em Lisboa. Desde que se aposentou tem-se dedicado a obras de inegável interesse historiográfico, como: "Entre Cardos e Espinhos ao Anoitecer - regresso ao Verão Quente de 1936", com o pseudónimo de A. de Alémmontes (2002); O Preto Deitado que não estava - Moçambique, 1969 (2003) e A Morte desceu à Praia (2005). Em José Lopes Alves, encontramos duas personalidades superiores: o militar e o escritor. A primeira foi coroada pelo topo da carreira. A segunda está patente nos quatro dezenas de obras cada qual a mais importante para poder ajuizar-se um século da vida social que caracterizou o nosso país, a nossa epopeia e a comunitária.
Este militar transmontano «tem publicados diversos trabalhos de índole técnica e cultural dos âmbitos político, histórico, militar e outros, romanceados e de base histórica». Tem um curriculum militar impressionante. Desde os anos oitenta, tem produzido imensos livros da mais variada temática. A europress tem sido a sua editora de serviço. Ultrapassa já os 40 títulos em obras de índole histórica, prevalecendo em todos o domínio puramente literário. Na introdução começa o autor por dizer que foi um dos cerca de dez militares expedicionários ao Estado Português da Índia, entre 1955 e 1957, período durante o qual se incentivaram a subversão e o terrorismo, especialmente no distrito de Goa. Neste seu último livro de 346 páginas explica, como protagonista, aquilo que se viveu nessas longínquas paragens Indianas. Este volume é um documento histórico-militar de grande oportunidade, narrado por um distinto militar que aos 92 anos nos delicia com estes pedaços de História Portuguesa.

Arnaldo Moura -memórias de um padre do Povo. Maria da Assunção Anes Morais organizou, em tempo recorde, uma biografia que veio eternizar um pároco que deixou um rasto de generosidade, de bondade e de humanismo. Esse pároco chamou-se Arnaldo Alves de Moura, nas freguesia de Pinho, do concelho de Boticas. Ordenou-se em 20/9/1958 e faleceu em 28 de Março de 2015. Para entrar na memória do povo um padre, como outra qualquer pessoa não precisa de fazer milagres. Basta-lhe ser afável, dialogante e sobretudo justo. Nas 350 páginas deste livro, não se descrevem fatos e feitos façanhosos deste bondoso Padre Arnaldo Moura. Mencionam-se quase uma centena de testemunhos, das mais variadas figuras que com ele conviveram e que são comprovativos da grandeza humana deste padre que não precisou de sair do seu terrunho para merecer uma homenagem. A Câmara de Boticas e a freguesia de Pinto irmanaram vontades e conjugaram esforços para que se perpetuasse a figura irrepreensível de um cidadão que, a docente e investigadora Maria da Assunção Anes Morais condensou num livro sério, oportuno e exemplar.

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publicado às 22:39

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Por Barroso da Fonte:
O jornalismo, como eu o conheci nos anos cinquenta, foi chão que deu uvas. Por isso cresce a corrupção, aumenta o caos e medra o compadrio. Se eu ainda tivesse a liberdade que tive no tempo da «censura» do Estado Novo, descobriria a careca a alguns camafeus que entraram na política com as calças na mão e, sempre enlameados, remaram a favor da corrente, chegando a deuses do reino da sua própria «ambição».
Os mais sensatos dizem-me que acabe com este tipo de jornalismo porque não endireito o mundo. Pelo contrário: serei ostracizado, perseguido, vítima da minha ingenuidade.
Talvez opte pelo silêncio. Mas nunca me juntarei a eles porque prefiro morrer de pé.
À falta de jornais onde possa exprimir as minhas mágoas contra este estado de vegetação, vou-me valendo de alguns blogues com os quais me identifico. Sempre em defesa dos valores supremos que preconizo e defenderei enquanto tiver alguma lucidez. Aos jornais que resistem, desejo longa vida.
Há uma década poucos sabiam o que era um blogue. Hoje haverá cerca de 250 mil. Um estudo internacional diz-nos que Portugal é um dos países onde mais gente escreve em blogues. E uma sondagem da Nielsen, diz-nos que mais de 20% dos cibernautas portugueses visitam diariamente blogues, facto que representa o dobro da média europeia. Essa mesma sondagem leva-nos a concluir que os países europeus com mais baixos índices de escrita e leitura de blogues são os escandinavos, enquanto aqueloutros países em que a blogosfera se mostra mais ativa são, além de Portugal, a Grécia e a Itália.
Possuir um blogue nos primeiros tempos para quem quisesse criar uma página na Internet tinha de conhecer bem a linguagem de programação «html» (Hyper Text Markup Language) e tinha de pagar o alojamento do seu site. Hoje qualquer pessoa mesmo pouco adestrada, com a informática, pode abrir e alimentar um blogue sem pagar, seja o que for.
No dia em que escrevo esta crónica recebo um mapa em permanente atualização da Biblioteca Municipal do Porto, através do qual se verifica que em 29 de Agosto deste ano estavam registados 36.063 títulos de periódicos, em Portugal, entre os quais 1. 109 jornais do Porto e 2.981 revistas. Já Lisboa, na mesma data, tinha 1997 jornais e 10 567 revistas. Braga tem no mesmo estudo: 523 jornais e 995 revistas. Vila Real conta com 188 jornais periódicos e 310 revistas.
Este mesmo mapa permite-nos saber que nos países lusófonos há, proporcionalmente, muito menos periódicos, trate-se de revistas, trate-se de jornais. Moçambique publica 82 jornais e 245 revistas; Angola edita 75 periódicos e 327 revistas; Brasil publica apenas 41 periódicos e 304 revistas. Em síntese: em língua portuguesa nos diferentes espaços da lusofonia, de acordo com este registo da Biblioteca Municipal do Porto estão registados 36063 títulos, sendo 9.087 em formato de jornal e 26976 em formato de revista. Parabéns Adriano da Silva!
Os blogues ainda não mereceram um estudo científico, como as publicações regulares ou periódicas. Mas envolve muitas mais tribunas, muito maior universo de cibernautas e uma maior liberdade de exercício porque se olha mais à quantidade da escrita do que à qualidade. Uns impuseram-se pelo pioneirismo outros pela fama dos seus criadores, outros ainda pela força dos seus mentores. O Insurgente, Abrupto, Corta-fitas. Estado Civil, Tempo caminhado, Farrapos da memória, Aquimetem, NetBila, Observador, Portugal, Minha terra, são alguns dos muitos milhares. Foi pena acabar com a maior parte da imprensa regional. Com o estrangulamento dessas tribunas medram os opinadores, políticos, técnicos, sindicalistas e outros equilibristas que se movem e removem, se culpam e desculpam, nas televisões, rádios e jornais diários. Assim se «matou» a liberdade de imprensa que era a menina mimada da democracia, em nome da qual tantas injustiças se propagam contra os indefesos.

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publicado às 11:19


Da terra venho

por aquimetem, em 09.08.16

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De “Poesia, amoras & presunto”, obra de Barroso da Fonte, galardoada com o Prémio Nacional de Poesia Fernão de Magalhães Gonçalves, transcrevo um dos poemas que muito me sensibilizou por corresponder à visão que tenho formatada desta viagem que sem fim determinado o Criador nos concedeu. Mediante estes versos eis-me nas minhas origens territoriais e sociais da década de 30, muito diferente do tempo actual, mas que nem por isso deixamos de ter saudades.


DA TERRA VENHO


Da terra venho
P´ra terra vou
E orgulho tenho
Do que sou


Nasci da fome
Com fome existo
Mas do nome
Não desisto


Venho da vida
Vou para a morte
- toda a ferida
É passaporte


O homem passa
E se renova
A erguer na praça
A sua cova


E eu tenho andado
A vida inteira
Ligado ao fado
A minha caveira.


                       Montalegre , 1972.

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publicado às 16:10

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Por: Barroso da Fonte

 Sempre tive pelos magistrados e pelos tribunais um enorme respeito. A toga preta que os titulares da justiça usam em julgamentos e audiências próprias da aplicação da Justiça, sempre me amedrontaram. Quando comecei a ir à vila de Montalegre (a sede do meu concelho), fixei na minha retina um ambiente quase sinistro. Volvidos 70 anos, ainda me arrepia o corpo e a alma. Em frente ao edifício da Câmara: o tribunal, a cadeia, o carvalho da Forca e o paredão da Casa do Cerrado. Nesse recinto se realizava a feira quinzenal do gado. Das aldeias chegavam os bezerros com cerca de 6 a 7 meses. Lá apareciam o Cinzas, o Barbudo, o Miranda e outros compradores que chegavam do Minho. Os preços por cada vitelo oscilavam entre as 17 e as 19 notas (de cem escudos cada). Meu pai já tinha comprador certo: o João Cinzas. Quase sempre oferecia 18 notas que era «dinheirinho sagrado» para os gastos essenciais, ao longo do ano. Outros vitelos eram comprados por negociantes habituais da zona do Minho. Juntavam esses vitelinhos em cortes de vila. E ao fim de cada feira, eram encaminhados, em manadas, por caminhos e atalhos que conduziam, com grandes dificuldades, até Braga e Guimarães, revendendo a talhos ou matadouros conhecidos. Conservo desses tempos recordações saudosas pelo amor aos bezerros que via nascer, crescer e partir para o abate fatal.
O cenário do Largo do Toural, mudou de sítio e de forma de comercialização. Em vez das «manadas», vieram as camionetas de transporte e o local da feira também mudou de sítio, tal como eu que deixei de ser pastor para ser estudante, militar e várias outras coisas, como esta de dar testemunho de como era no meu tempo e na minha geração.
Dessas más recordações me servi para não querer nada com tribunais, cadeias e funções afins. A primeira vez que entrei num tribunal foi em Chaves, num conflito entre clientes de dois advogados: Manuel Verdelho e o «Dr. Alheiras», cujo nome verdadeiro nunca fixei. As coisas «aqueceram» entre os dois juristas, de tal modo que eu, regressado de Angola, como oficial miliciano Ranger, disse aos circunstantes que, em dois anos de guerra, nunca assistira a cena tão peripatética.
Declaradamente fiquei mal impressionado com a experiência e, ainda que, como jornalista tenha sido arguido nalguns processos por «alegado abuso de liberdade de imprensa», nunca fui julgado, nem sequer admoestado, o que considero uma façanha para quem, como eu, sempre foi tão frontal como polémico.
A este propósito deixo aqui um certo sentimento de pasmo: o anterior governo – que eu saiba – atravessou um mandato de 4 anos sem que algum governante, político ou assessor, tenha processado qualquer jornalista ou órgão de informação. E muitas injúrias, nomes feios e acusações graves foram, publicamente feitas contra vários governantes. Já o mesmo não se pode dizer de membros do atual governo e de seus apoiantes, como o ministro da Educação e o sindicalista Mário Nogueira que já anunciaram processar alguém que os beliscou. Pela aragem...
Trouxe este tema à reflexão com os meus leitores pela notícia que tem circulado em jornais credíveis, como o JN de 21 de Maio, pela revista Gente da última semana. Nesta revista cor-de-rosa foi manchete, na capa, em duas páginas interiores. Na capa pôde ler-se: «Sócrates e advogados chocados- não queremos acreditar que isto possa ser verdade – Escândalo Festas Privadas no Tribunal – oficiais de Justiça divertem-se no local de trabalho». A revista usa letras garrafais e imagens com diversas pessoas como interpretes, facilmente identificáveis.
O JN mostra uma imagem elucidativa e escreve em título: «Vídeo de funcionárias judiciais faz furor nas redes sociais: Dança no varão sem inquérito disciplinar». Se a notícia vem confirmar que tais procedimentos afetam a (boa) imagem dos funcionários da Justiça, o que aí se lê, é que alguma coisa mais profunda e revoltante se passa com a Justiça e seus servidores.
«As funcionárias judiciais que improvisaram uma dança no varão no local de trabalho não deverão ser alvo de processo disciplinar». E esclarece: «o que fizeram durante a hora de trabalho, se ocorreu, é grave. Mas ocorreu há mais de um ano. E «o Código Administrativo não permite abrir inquéritos sobre algo que ocorreu há mais de três meses. Ora a cena terá sido filmada numa terça-feira de Carnaval, em 2013 e, durante o almoço. Vê-se bem que foi uma brincadeira»...
Mas os funcionários públicos, já por si, têm má imagem, por parte de quem a eles recorre. No caso concreto dos tribunais, as televisões mostram, nalgumas reportagens, as pastas espalhadas pelo chão, em cima de mesas mal arrumadas e acauteladas, face aos casos jurídicos que estão em segredo de justiça. Essas imagens vêm sempre ao de cima, quando, num caso como este, surgem cenas nada edificantes. As decisões políticas recentes, de fechar, de reabrir, de alterar serviços tão complexos, quase dá a entender que a justiça anda de rastos. E a justiça não é, nem pode ser uma bola de pingue-pongue.

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publicado às 11:18

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Por : Barroso da Fonte

Na última edição deste Jornal, vinda a público no dia 30 de Maio, em toda a sua pagina 11, noticiei um «caso grave» que se vive, a céu aberto, naquele que foi o centro vital, dos dois aldeamentos, mandados construir pela Junta de Colonização Interna, nas décadas de 1940/1950. Nasci nesse tempo, minha irmã mais velha teve direito a uma casa dessas e aí nasceram os seus sete filhos que emigraram. Além de casas tiveram direito a terrenos que mais tarde deixaram, por terem emigrado. Sempre entendi esse projeto como obra meritória. E, ainda hoje, quando ali passo, tenho saudades de quando ali ajudava meus familiares, nas fainas agrícolas.
Conheci o saudoso Regente Agrícola Pisco, Homem que pautou a sua vida pela lisura, pela competência e pela honradez, virtudes que se perderam e que não posso deixar de invocar. Vivia ele no «chamado Centro» das duas aldeias: «de Barroso» e de «Criande». Era uma espécie de responsável dos aldeamentos existentes na região do alto Barroso (Montalegre e Boticas). O de Cri- ande situa-se aos pés de Morgade e, quem não souber a história, pensa que se trata da mesma povoação. Mas não: são duas, ainda que fundidas. Ali passava a antiga Estrada Nacional: Braga-Chaves. Na década de 1960 mudou mais para norte: passando por: Friães,Viade, Parafita, Penedones, S. Vicente. Nesse espaço foram plantados muitos pinheiros que, por bem cuidados, bem distribuídos e com a água da Barragem à sua volta, possibilitaram, ali, uma espécie de ilha que no verão servia de praia aos passantes e pescadores.
Esse núcleo cresceu, urbanizou-se e tornou-se uma zona de lazer. Teve uma pousada, estação de serviço para reparação de alfaias agrícolas e até teve direito a uma rotunda, que terá servido de modelo para a chusma delas que povoam hoje as cidades e vilas de norte a sul do país.
Com a revolução dos cravos e com a perseguição a quem não barricou as ruas, preferindo manter-se, calmo e sereno, cumprindo, honestamente, as suas competências, o referido técnico e família mudaram-se para a cidade e, por lá reconstruiram as suas vidas. A ingratidão fez vítimas inocentes que prepararam o céu para quem, em condições normais, merecia o purgatório.
Com o simbolismo desta metáfora, em 27 de Maio último, chegaram ao meu conhecimento imagens comprovativas de que esse apetecível espaço, já depois de ter sido inaugurado pelo então e atual ministro Capoulas Santos, em 1998, o Centro de Formação Profissional Agrário de Barroso, virou antro de todo o tipo de monstruosidades. Espaços que, de confortáveis salas da aulas, ricamente equipadas com monitores audiovisuais, quadros, computadores, pastas, ficheiros, material vídeo, viraram o lamaçal que ali está. Certamente, quem me fez chegar essas provas, sabendo que sou jornalista, dizia-me «O sr. costuma escrever que as pessoas da sua terra são sérias e civilizadas. Eu sou pescador e fui chamado para ver aquela lixeira. Faça também uma visita a esse local. E depois escreva acerca daquilo que viu». No fim de semana seguinte cumpri o desafio. E escrevi o que veio a público, informando, fosse quem fosse, que me desse uma explicação para que eu pudesse esclarecer os leitores, acerca daquela montureira que envergonha não só as autoridades implicadas, como os Barrosões e cidadãos em geral.
Inseri, inclusive nessa página de jornal, cópia de 2 tipos de envelopes, perfeitamente utilizáveis, com a agravante de que foram feitos vários milhares deles com a gravação de correio azul pela litografia Maia. Andam por lá, aos pontapés de todos, sabendo-se que foram pagos pelo erário público e cada um vale 1,10 euros. Essa estrumeira sem portas, de céu aberto, com tudo esventrado, sujo, inútil, com carcaças de plasmas, de estantes, de televisores, de cadernos escolares, de pastas com os cadastros de alunos, de contas, de diplomas, de camisas de Vénus, de cd's,mais lembra um terramoto do que um sítio aprazível, centro de formação, escola ou mero dormitório. Ninguém pode culpar ninguém, de levar dali, seja o que for, porque está aos deus-dará, entre pinheiros e silvados, um mundo que permitiu a muita gente, para o bem e para o mal, esbanjar o património nacional No mês que decorreu fui diversas vezes a Montalegre. Cumprimentei muita gente. Penso que alguma dessa gente é co-responsável. Ninguém, absolutamente ninguém, me questionou, me fez qualquer observação, nem chegou à redação do Jornal qualquer reparo. Esperaria que chegasse qualquer explicação justificativa. O espaço desta crónica serviria para dar possível justificação que assumisse o descuido, ou até da própria Câmara, a informar que iria proceder à limpeza desse espaço.
Pelos vistos é o jornalista que não merece crédito e que anda neste mundo ou está ligado a esta terra para levantar problemas a quem não tem culpa nenhuma.
Pela minha parte cumpri apenas o dever de informar, não acusando, seja quem for. É uma missão que cumpro desde há 62 anos. Tenho a minha carteira profissional em dia, nada consta no meu cadastro acerca de direitos caducados. E por isso podem todos os pescadores da Barragem de Pisões, visitar esse e todos os lugares com ou sem história. A não ser os pinheiros que são do domínio público, tudo aquilo que ali existe, em bom ou mau estado, timbrado ou manuscrito, entrou no domínio público e nada ali existe que tenha portas convencionais, que seja proibido para levar ou consultar.
Dizem-me que sucede o mesmo no Posto Experimental da Veiga, entre a Vila, Meixedo e Codeçoso.
Um concelho a saque, um património público que tão útil foi no tempo em que me criei e que, entre no domínio público como se vivessemos no reino das bananas.

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publicado às 15:26

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De Barroso da Fonte:

O Desportivo de Chaves nasceu em 1949 e só na época de 1972/3 subiu da III à II divisão nacional. Em 1974 completou 25 anos e a direcção dessa época convidou-me para escrever a letra e ao Carlos Emídio Pereira para escrever a música. Desde aí é sempre cantada quando há jogos no seu Estádio. No início deste século a Ágata, mãe do actual Presidente, Bruno de Carvalho, gravou-a em CD, através da Espacial. Mas em vez de pedir autorização aos autores e de escrever os nomes da letra e da música, omitiram os seus nomes e chamaram-lhe «populares» Na edição de 02-11-2007 o Jornal Notícias do Douro, deu essa notícias nos seguintes termos: «Discográfica que editou CD do Desportivo de Chaves «matou» os autores da letra e da música». O Grupo Desportivo de Chaves já esteve 13 anos na I divisão, já foi a uma Final da Taça de Portugal ao Jamor contra o Porto, em 2015 chegou a estar na I, mas no último segundo, subiu o Tondela que este ano vai descer. Já o Desportivo de Chaves está em 1ª lugar dos que sobem e torcemos por esse regresso. Mas já que a APEL não deu andamento ao processo, fica aqui desmistificado o «roubo». Há muitas formas de matar pessoas vivas. E a Espacial cometeu essa proeza, ao editar um CD, registado na SPA com o n° 3200637, em 2003, plagiando a letra e a música e registando-as com a palavra “popular”, quando o autor da letra está vivo, como se vê por estas palavras que assina, e o autor da música Carlos Emídio Pereira, faleceu há 14 anos, mas tem o filho, António Maria Pereira, a viver em Vila Real, pertencendo-lhe os direitos artísticos do Pai.
Como se sabe, as obras literárias e artísticas têm dono, tal como uma propriedade que se herda ou um automóvel que se compra. E, do mesmo modo, também os direitos desses bens se transmitem aos herdeiros, até 75 anos para além de morte dos seus criadores.
Quem tiver dúvidas sobre a legitimidade que aqui se reclama poderá consultar a imprensa da época, nomeadamente o Notícias de Chaves de 28/9/1974. Aí se podem ler, sob o distintivo do Clube: «letra da marcha do Grupo Desportivo de Chaves - Comemorativa das suas Bodas de Prata que ocorreram ontem, dia 27-9-1974. Música de Carlos Emídio Pereira, Letra de Barroso da Fonte, interpretação de Avelino Aurélio (Bio)». Na altura, o Álvaro Coutinho, um competente tipógrafo da Gutenberg, que, com o António Saldanha, viria a assinar um livro sobre o glorioso Desportivo de todos nós, fez e distribuiu centenas de folhas soltas com essa letra, devidamente identificada, para que todos os adeptos pudessem cantar o Hino, sempre que quisessem e/ou em dias de futebol no Estádio Municipal. Ele, felizmente, está vivo e pode comprová-lo. Há cerca de um ano, o Dr. Manuel António Pereira assinou neste jornal um texto em que falava da letra do Hino, cantada por Ágata, pertencendo essa letra a Barroso da Fonte. Ignorava eu essa edição. E, durante estas férias, procurei em Chaves um exemplar desse disco compacto que me confirmou duas realidades: a alegria de ver essa marcha cantada por uma artista de projecção nacional e com a qual já me cruzei na «Praça da Alegria» da RTP, a tristeza por verificar que, onde deveriam constar os nomes dos autores, estava escrita a palavra «popular», possivelmente para que a discográfica pudesse furtar-se aos direitos de autor. Pior ainda: nos 24 versos dessa melodia aparecem sete gralhas de palmatória, desvirtuando a canção, no espírito e na forma.
Logo no 2º verso, onde deveria estar «Saiba-o bem toda a gente», aparece: «Saibam bem toda a gente». No 3º verso, onde está «supera as maiores entraves», deveria estar: «os». No 7° verso, onde está: «A luta», deveria estar: «Na luta». No 13° verso, onde escreveram «Somos de Chaves Unidos», deveriam ter escrito «Somos de Chaves. Unidos,». No Coro (refrão), onde chaparam «O Desportivo de Chaves», deveriam ter respeitado: «Meu Desportivo de Chaves». E, no 3° verso dessa quadra, onde aparece «joga sempre como sabe», deveria aparecer «joga sempre como sabes» (para rimar e dar sentido ao poema). E grave, gravíssimo, é a troca da palavra «guiar» por «Guião» no 6° verso do Côro, para rimar com «verdadeiro campeão», última palavra do 8° verso. Também a música sofreu profundas modificações, o que não aconteceria se tivessem falado com a família do autor, que tem o original, devidamente transcrito, como nós temos.
Deste lamentável episódio foi dado conhecimento à editora Espacial, por fax, em 3/10, que nem sequer deu qualquer justificação. E, embora sabendo que a actual Direcção do Desportivo nada teve a ver com o sucedido, foi-lhe comunicada a anomalia, na mesma data, tendo respondido em 22, a mostrar-se surpreendida e a disponibilizar-se para «cooperar no sentido de esclarecer e repor a verdade e legalidade dos factos, sendo caso disso». Importará dizer que também no site da Internet do Grupo Desportivo aparece a letra, sem o nome do autor e com os erros atrás assinalados. Apela-se à sua actualização.
Quanto ao diferendo, foi já participado à Sociedade Portuguesa de Autores para reparar os danos morais e materiais, o que se teria evitado se, em tempo útil, quem tomou a decisão, tivesse consultado os legítimos proprietários. Pela nossa parte concederíamos ao Desportivo mais esse contributo (na conturbada época dos anos 70 já tínhamos sido o vice-presidente da Direcção que levou o GDC da III à II divisão). E, certamente, o fariam os herdeiros do saudoso Carlos Emídio Pereira. Face à «morte» que nos causaram, felizmente vivos, veremos o que os tribunais decidem, se o diálogo não prevalecer.
Trata-se de um ato lesivo dos mais elementares direitos artísticos e implicando pessoas e instituições de bem, assiste-nos o direito de publicamente reclamar aquilo que nos pertence, cumprindo o princípio: o seu a seu dono.

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publicado às 22:30

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De Barroso da Fonte:
A coincidência do aniversário de Bento da Cruz com o de mediático Padre Fontes, em 22 de Fevereiro, fez com que a Câmara de Montalegre, na presidência do médico Joaquim Pires e do Prof. Fernando Rodrigues, trouxesse à tona os méritos do escritor Bento da Cruz e do etnógrafo Padre Lourenço Fontes. Cada um à sua maneira evidenciou as qualidades que sobressaíram da vulgaridade. Políticos da mesma área, foram pescados no mérito da escrita. Bento da Cruz fora o primeiro a impor-se pela qualidade da sua obra literária. Até 1950 poucos Barrosões se tinham revelado figuras de repercussão regional ou nacional.
Montalvão Machado, Juiz em Montalegre, com o Arcipreste de Barroso, Ferreira de Castro com «Terra Fria» e Artur Maria Afonso com Boninas de Chaves e com os versos sobre o enforcamento do Bagueiro, tinham dado sinal de que esse planáltico espaço do Larouco, à Mourela e desta ao Gerês, era habitado e, desde há muito, constituía a principal porta da fronteira com a Galiza.
Fora um vazio de ideias, de pobreza social e, sobretudo de escuridão cultural.
Se não havia quem tivesse vocação e preparação para dar testemunhos em livros, também em jornais esse vazio se limitava a João do Rio (pseudónimo de um Padre de Vila da Ponte), ao Alberto Machado (de Stª Cruz-Venda), ao José Taboada, de Montalegre. Como correspondentes de diários era na imprensa regional que pontificavam, de longe a longe.
Foi na ausência de colaboradores mais assíduos na imprensa regional e nacional que o autor desta nota de leitura, começou a dar Voz às Terras de Barroso, em a Voz de Trás-os-Montes, no Notícias de Chaves e em a Voz de Chaves. E também no DN, no Diário Popular, Jornal do Norte e no Primeiro de Janeiro que passámos a ter voz ativa. É certo que em Barroso tinham existido vários semanários, quinzenários e mensários. Mas após essa febre de jornais a mais, veio o tempo das vacas magras. No século XIX publicaram-se vários periódicos porque havia diversos partidos políticos e cada força procurava manifestar-se por essa quase única via, visto não haver rádios, nem televisões, nem outros meios que hoje proliferam. Durante o Estado Novo perdeu-se a liberdade e perderam-se vocações por falta de estímulos à educação permanente dos cidadãos que vegetavam no interior do país. O concelho de Montalegre foi vítima do seu isolamento. Por falta de meios e de escolas, os jovens não estudavam. E aqueles que conseguiam ter acesso à escola eram raros. Os filhos de famílias remediadas ainda chegavam ao liceu. A par desses, somente o seminário diocesano de Vila Real que apareceu na primeira década do do Estado Novo.
Bento da Cruz nasceu em Peireses, em 1925, no seio da conhecida Família dos Marinheiros. Por volta dos 15 anos ingressou no Mosteiro de Singeverga, de onde saiu, anos depois para ingressar no Curso de Medicina em que se licenciou e fez carreira. Aos 34 anos publicou o seu único livro de versos e, aos 38, passou a publicar em prosa, em torno da mítica aldeia de Gostofrio, nome do Monte do Castro que pertence a Codeçoso e que fica junto à EN, onde hoje existe a estação da recolha e tratamento do lixo da Câmara. Esse era o monte comum às povoações de Codeçoso e Peireses, para apascentar o gado. Também junto da Estrada 311, no concelho de Boticas, há um povoado com o nome de Bostofrio. Mas B. de C. foi pastor e muitas vezes «botou» o gado ao monte de Gostofrio pelo que esse topónimo terá servido de laboratório para o seu imaginário ficcional. Como era o primeiro Barrosão a escrever e a usar temática etnográfica e antropológica sobre um povo martirizado e quase escondido no «planalto» que usaria para título do Jornal que criou e dirigiu até à morte, depois das recensões favoráveis da imprensa prevalecente de Lisboa e Porto (DN e JN), o autor foi acarinhado pela crítica, mas bastante, contestado pelo clero e alguns católicos mais afeitos ao tradicionalismo reinante. A Editorial Notícias e a Âncora foram editoras que apostaram no autor que floriu em terra certa e em hora de promissão. Ao mérito ficcional juntou-se o evolucionismo partidário. Após meio século de autor do novo regime e noventa de idade, B. de C. sentiu, em vida, os louros que os artistas, normalmente só alcançam depois de mortos. Patrono da Escola Secundária, Patrono do Agrupamento, nome na Biblioteca dessa Escola, uma avenida com duas travessas dessa avenida, mais uma escultura com o seu busto, no recinto da mesma Instituição foi quanto Bento da Cruz granjeou em vida.
No dia 22 em que completaria 91 anos se fosse vivo, o Presidente do Agrupamento de Escolas, Dr. Paulo Alves e a sua equipa primaram pelo fulgor da homenagem ao mais conhecido escritor Barrosão. Com a presença da Família (Viúva, filho, nora e netos, mais o irmão mais novo), o Presidente da Academia de Letras de Trás-os-Montes, António Chaves; a Presidente da Assembleia Geral da mesma Academia, Maria da Assunção Anes Morais e Vice-Presidente do Agrupamento de Escolas de Vila Pouca de Aguiar, mais o signatário, usaram da palavra para enaltecer a vida e a obra do homenageado. Foi uma manhã em cheio, com um sol de inverno a aquecer o ambiente que a neve da Serra do Larouco parecia transtornar.
Paulo Alves conseguiu reunir naquele auditório, completamente cheio de alunos, professores e convidados, representantes das principais instituições publicas e privadas da capital de Barroso. Na feliz saudação que fez, Paulo Alves esclareceu que até 22 de Fevereiro de 2017, serão regulares, os eventos culturais a levar a efeito.

O livro IN MEMORIAM BENTO DA CRUZ
O encontro da partida para rememorar a vida e a obra de Bento da Cruz começou dia 22 de Fevereiro. Tendo falecido em 25 de Agosto de 2015, completaria 91 anos de vida no dia em que a Escola de que é Patrono o invocou, convocando os Barrosões (e não só) para um ano inteiro de atividades em sua homenagem. Dois dias antes a UTAD e o Grémio Literário de Vila Real tinham-se aliado à Câmara para o mesmo efeito. A ideia fora do compadre do extinto autor José Dias Baptista que sugeriu in memoriam Bento da Cruz. Nesse livro de 116 páginas editado, algures, pela NORPRINT, com a nota introdutória de três editores: Fernando Moreira, Joana Abreu e Orquídea Ribeiro e custeado pela autarquia, se condensam 37 testemunhos desde a Esposa Ilda Cruz ao Ricardo Moura, do Gabinete de Imprensa. Orlando Alves, Presidente da autarquia afirmou que esta ainda não era a homenagem da Câmara. Seu antecessor, Fernando Rodrigues foi claro ao afirmar que a ele e a Manuel Baptista se deveu a designação deste nome para a Escola. Que a Câmara já fez tudo o que tinha a fazer para eternizar o democrata, o socialista, o jornalista, o libertador e deputado e o mais que ele próprio não quis ser.
No site da Academia de Letras de Trás-os-Montes, podem ver-se e ouvir-se os convidados da Câmara Municipal, que no dia 20 de Fevereiro se concentraram em Montalegre para o tiro de partida para a maratona que só terminará em 22 de Fevereiro de 2017. Esse é o programa da Escola de que é patrono.

 

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publicado às 18:21

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 De Barroso da Fonte:

Convivi com Bento da Cruz na Barragem de Pisões na década de sessenta. Em 30 de Junho de 1962 abandonei o Seminário de Vila Real. E, nos primeiros dias de Julho seguinte, fui ali pedir emprego, recorrendo ao Senhor José Cruz que tinha sido primeiro sargento militar e que vivia maritalmente com minha prima, Maria do Carmo, professora do ensino primário. O seu Pai era conhecido pelo «Tio Vicente Terré», de Codeçoso que casara para Gralhós, onde a filha nasceu. Curiosamente veio a ser a professora que preparou para a quarta classe o atual Presidente da Academia de Letras de Trás-os-Montes, António Chaves, que curiosamente foi o maior confidente e biógrafo de Bento da Cruz.

O inspetor José Dias Baptista que foi meu condiscípulo de Seminário em Vila Real, desde o primeiro ano até que o abandonou para casar com a «Mingas», seu amor de sempre, desde cedo se iniciou nos trilhos da escrita e também do Jornalismo, tal como eu e o Bento da Cruz.

O Bento era mais velho (1925) e optou por Singeverga. Acabámos por reencontrar-nos os três, na Barragem de Pisões. A obra que alterou, radicalmente, o coração de Barroso, fez desse estreito da planura mais fecunda das margens do Rio Rabagão, palco do mais populoso acampamento que o amplo concelho de Montalegre teve. No auge da obra que se prolongou por toda a década de 1960/1970 terá sido habitado por cinco a seis mil pessoas, entre trabalhadores e familiares, para o que foi preparado o «bairro definitivo» e as habitações para os quadros superiores e operariado. Às habitações foram adicionadas estruturas essenciais: mercado, escolas, ginásios, piscinas, parques desportivos, albergaria, restaurantes, correios e gabinetes médicos. Após a inauguração os quadros acompanharam a HICA para outras obras; e os tarefeiros e indiferenciados desertaram para onde o destinos os levou: emigração, desemprego ou ocupações domésticas.

O lugar do Pisão foi promovido a aglomerado populacional. Aquele que foi o bairro dos trabalhadores e estruturas de apoio ficou abandonado. Alguns por ali ficaram, à míngua de melhor destino. E do pisão (engenho movido a água) de pisoar o burel das capuchas e mantas caseiras, ficou um sítio geográfico, com direito a paragem das carreiras regulares; o antigo escritório que lhe servia de apoio, virou café; e nas melhores habitações passaram a residir alguns técnicos e famílias que garantem o apoio logístico ao empreendimento.

Como disse atrás, quis o acaso que os três barrosões, fertilizados para as letras pelas águas do mesmo rio, ali nos encontrássemos. O Bento como médico dentista, ao serviço do pessoal da HICA; o Zé Baptista, como professor do ensino primário. Nascera ali perto, na Vila da Ponte, tal como a Mulher e dali nunca quis sair. Eu próprio, como Fiscal da Hica, ali me mantive, até 24 de Janeiro, dia em que ingressei na vida militar, em Mafra.

Inaugurada a albufeira, só o Zé Baptista por ali ficou. Fez-se à vida. Licenciou-se em História e optou por derivar. Cansado de dar aulas, concorreu à Inspeção e atingiu o topo da carreira. Nisso ganhou ao Bento e a mim, porque passou a vida inteira sem sair do berço do país Barrosão.

O Bento radicou-se no Porto, montou consultório e fez aquilo de que gostava. Eu, no regresso da guerra no Ultramar, fixei-me em Chaves e fiz-me à vida. A minhota que ao terceiro noivado me demonstrou as virtualidades míticas da água da mijareta, tendo ela nascido no Centro Histórico de Guimarães, foi colocada em Chaves. Por artes do mafarrico, a responsável pelos Serviços, destacou-a para Montalegre. Casando eu com ela cumpriu na perfeição as virtualidades míticas daquela água, reconfirmadas pelo Padre Fontes.

Acabei por fixar-me em Chaves, onde lecionei, e exerci as funções de chefe de Redação do Notícias de Chaves, semanário, onde colaborava desde 1962. Esta ligação ao mais influente jornal de Chaves, foi passaporte para muitas ramificações que estabeleci com a sociedade, com a cultura e com os amigos que me prenderam à vida e às ocupações que contraí pelos anos adiante. Uma dessas ocupações teve a ver com Barroso e com os Barrosões, nomeadamente com Bento da Cruz que por essa altura acabara de publicar, as Filhas de Lot.

     Depressa me integrei na comunidade Flaviense a ponto de, por concurso público, ser o primeiro funcionário do Centro de Emprego de Chaves que cobria os concelhos da região do Alto Tâmega. Mas foi através do Jornal que tinha como diretor o Prof. Soares Pinto, que pude envolver-me no mundo das artes e das letras. Verdadeiramente só a partir daí contextualizei a vida e a obra de Bento da Cruz que pela sua boca fui informado de que ainda éramos aparentados, por via de meu avô paterno que tinha nascido em Peireses e que cedo emigrou para os Estados Unidos, de onde nunca mais regressou. Infelizmente nunca cheguei a conhece-lo.

Odisseia com as «Filhas de Lot»

Se nos Pisões o meu contacto com o Bento da Cruz não passava do mero cumprimento de cortesia e do respeito mútuo, foi pelos jornais que fui sabendo da sua atividade literária. Ainda jovem adquiri Hemoptise, seu primeiro livro de versos que o autor renegou.

Em 17-2-1968, na rubrica «Tribuna» do Notícias de Chaves o próprio mencionou «o Planalto em Chamas» (1963), como a sua primeira obra. E nunca mais apareceu ao lado daqueles que se seguiram.

Quando, em meados de Junho de 1967, regresso do Ultramar e assumo a coordenação do Semanário, onde eu tinha abertura privilegiada, apercebi-me de que Bento da Cruz e a Família Castro Lopo, proprietária da Gutenberg que já tinha a livraria do mesmo nome e que acabara de comprar o jornal e a tipografia, haviam acordado executar, graficamente, o seu terceiro livro a que chamou Filhas de Lot, com o compromisso do Jornal proceder à sua divulgação. Ao contrário dos dois livros anteriores e dos posteriores que foram confiados, quer na edição, quer na distribuição a empresas com experiência, este terceiro romance apareceu no mercado com edição do autor.

Na edição de 15 de Abril de 1967 aquele semanário dava uma notícia breve nos seguintes termos:

É posto à venda na próxima sexta-feira o novo livro de Bento da Cruz «Filhas de Lot». Esta obra é distribuída pela papelaria Gutenberg. Durante a manhã de Sábado o autor dará uma sessão de autógrafos.

Ora a qualidade gráfica dessa edição fora pouco cuidada. A Gutenberg funcionava bem como gráfica, mas não como distribuidora. E daí que esse terceiro livro não tivesse a difusão que se esperava. Os poucos exemplares que se distribuíram circularam na zona do Alto Tâmega, entre pessoas e classes sociais que quiseram certificar-se do seu conteúdo. Ou então expedidos por correio, na sequência de pedidos formais à Gutenberg. Era usual, à época, o autor enviar dois exemplares a jornais que costumassem noticiar a saída. Um exemplar destinava-se à biblioteca desse jornal e o outro ao crítico que o lesse para redigir uma nota, habitualmente breve.

Como trabalhei nessa tipografia até 1975, acompanhei esse processo e pude ver exemplares dessa edição, por ali acantonados, entre tintas e papéis velhos. Presumi que, pior do que o trabalho gráfico, terá sido a deficiente distribuição. Verdade é que foram dois recensores do Jornal de Notícias: José Viale Moutinho e Ramiro Teixeira que se incumbiram de recensear e promover esse autor e a sua obra. Coordenavam eles o sector das referências aos livros que chegavam à redação desse matutino. E já por essa altura o pendor ideológico influenciava o panorama cultural.

   Bento da Cruz que em Singeverga alicerçara a sua bagagem linguística e literária nos grandes clássicos latinos e que sempre estigmatizou o drama social das gentes de Barroso, em tudo o que produzia, fez dessa veia interior, o íman de toda a sua obra que dilatou, numa série de romances que o catapultaram para tronos que nem sempre foram consensuais.

Ao mérito do autor que arrastou consigo uma peculiar forma de narrar factos, de criar ambientes e de lhes adicionar tiques condizentes com os cenários bucólicos, num mundo original como são as Terras de Barroso, acresceu o fator político. Os seus parceiros de ambientes urbanos, viram nele predicados estilísticos que aos próprios faltavam. Deram-se bem nos secretos sínodos que sempre existiram nas sociedades em evolução apressada.

A revolução de Abril operou-se quando Bento da Cruz mais precisava de clarificação para o seu rumo editorial. Todos os fatores se conjugaram nele e na sua obra. Tinha ela pernas para andar. A temática social era propícia. Antropologicamente as terras de Barroso eram propícias à sementeira. O linguarejar prestativo. A etnografia apropriada. Enfim, à experiência rural só faltavam os meios: clima ajustado à fertilização, os adubos para o crescimento e o estendal para o sequeiro.

Nada disso faltou a Bento da Cruz. Foi deputado à Assembleia da República, a Editorial Notícias e a Âncora compensaram alguma ineficácia da Gutenberg. A crítica nacional correu de feição. A autarquia natal funcionou como a Santa Bárbara em dias de trovoada. Por acréscimo vieram os mimos sociais: a perpetuação do seu nome na maior Escola pública do concelho, uma avenida e respetiva travessa na sede de concelhia, um busto em bronze artístico e um anunciado centro cultural que ficará para a próxima revolução.

Ao mérito inegável de Bento da Cruz correspondeu a mais importante de duas vertentes: a sorte e o azar. Esta bidimensionalidade faz parte da vida de qualquer pessoa. E acontece todos os dias. Um avião cai e morrem todos os passageiros. Logo se vem a saber que mais um passageiro se destinava àquele voo. Mas perdeu o avião e não embarcou. Na praia do Meco: morreram 6 naquela praxe académica. Mas eram sete. Um salvou-se. Num sismo morrem centenas. Uma semana depois há uma criança, um velho que sobrevive. Logo se fala em «milagre».

Sejamos claros: para tudo na vida é preciso ter sorte. Bento da Cruz foi, inegavelmente, um bom contador de estórias. E por isso ficou na História de Barroso. Mas a sua maior sorte foi ser um ideólogo de esquerda, ter criado um jornal que foi a voz dessa esquerda, ter a seu lado a imprensa da esquerda e o apoio editorial para dar voz a esse ideário. Digamos que foi tão sortudo como bom romancista. Também no desporto não há campeões sem sorte.

Contraponto e Descoberta na obra de Bento da Cruz

A amizade pessoal que Bento da Cruz granjeou com a sua radicação no Porto e sobretudo, graças à sua ideologia política que nessa altura era fator decisivo, o autor de Filhas de Lot, viu compensado o erro de fazer uma edição de autor, ao ter o apoio incondicional de dois críticos influentes não só no JN, onde trabalhavam, mas também noutros órgãos de influência da mesma área. A esquerda ideológica estava organizada e era solidária, fosse na maçonaria, fosse na Seara Nova, na Sedes, na Opus Dei, fosse em tertúlias de cariz cultural, económico, religioso e, sobretudo, político.

Exemplo claro desse apoio literário foi a entrevista que José Viale Moutinho assinou no JN e que o Notícias de Chaves transcreveu ipisis verbis na edição de «Sábado, 22 de Abril de 1967».A essa entrevista chamou Viale Moutinho «Contraponto e Descoberta» Este diálogo com Bento da Cruz é ilustrado com uma foto do próprio, fumando cachimbo.

A dado passo afirma Viale Moutinho:

-Estamos em 1967, Bento da Cruz escreveu «Filhas de Lot». Outro romance que saiu da tipografia e está fresco, nas montras das livrarias.

-   A história de Lot e suas filhas vem no Génesis, capítulo 12, versículo 30 e seguintes. Outro conto: o de duas raparigas e um rapaz perdidos numa aldeia barrosã. Um rapaz culto, flagelado por todas as tentações da carne e algumas do espírito, ateu e profundamente religioso; uma professora fiel às crenças familiares, muito digna moral e uma enfermeira para a qual, em costumes e religião tudo está bem, desde que possa gozar a vida e fruir o amor – uma existencialista a seu modo e no seu meio. Para lá da «casa escola», ficam as amaldiçoadas terra de Sodoma e Gomorra, neste caso, as terras arcaicas do Barroso, particular Gostofrio, cujos habitantes passam e perpassam no olhar da professora debruçada à janela».

- Qual é o trajeto em «Planalto em Chamas» e «Filhas de Lot»?

- O trajeto, inevitável e ascendente da minha evolução de ficcionista. É natural que eu me tenha esforçado por corrigir em Filhas de Lot erros dados em Planalto em Chamas e em ao Longo da Fronteira. Talvez haja mesmo duas ou três personagens do «Planalto» reconhecíveis em Filhas de Lot, caso do pastor de ovelhas: primeiro pastor de ovelhas, depois pastor de almas.

 

     O meu herói é aquele que nunca pegou em armas

António Roque e José Luís Sarmento coordenaram ao longo de quase um ano, entre 1967 e 1968, na 2ª página do Notícias de Chaves uma rubrica a que chamavam Tribuna

Essa secção tinha 13 perguntas de algibeira: a resposta à primeira usei-a em título desta nota necrológica.

À quarta perguntava-se:

- diga-nos a sua opinião sobre o amor.

Bento de Cruz respondeu: - «...amor super omnia. Só per ipsum, et cum ipso, et in ipso, o homem vivit, regnat et inundat per omnia secula seculorum. Amén!»

À sétima pergunta:

- que mais detesta no homem ?

- a hipocrisia!

Como se vê Bento da Cruz era parco e incisivo nas respostas. E demonstrava que sabia latim. Mesmo quando interrogado acerca de um tema universal e intemporal. O investigador desta vida e obra terá que rebuscar perto de casa, as minúcias que pouco representaram no processo de criação literária que após a sua morte, tiver de fazer-se, para o bem e para o mal.

Esta ideia do seu amigo e compadre Zé Baptista é a primeira e aparece por volta dos 91 anos do seu nascimento. A um ano de distância ainda está fresca a sua partida. Uma das suas bandeiras parou com a sua morte. O Jornal Correio do Planalto. Durante 40 anos foi sobrevivendo e alimentando o fogo de uma fação ideológica. Ajudou a muitos, contestou bastantes e silenciou-se naturalmente, como obra humana que é.

   Tendo sido vetado como colaborador, meses depois do seu aparecimento e zurzido uma vez por outra por razões ideológicas, nem por isso o hostilizei. Orgulho-me – isso sim - de ter encadernado em sete volumes, por ordem cronológica as quase setecentas edições que produziu ao longo dos seus 40 anos de vida. Entendi e continuo a entender que um jornal é uma privilegiada fonte da história local. Este e todos os demais que se publicaram em Montalegre, desde 1950 e também na região do Alto Tâmega, tive o cuidado de juntá-los à minha bagagem pessoal. Alguns foram para Angola, voltaram comigo, levei-os para Chaves e acompanharam-me para Guimarães. Aqui gastei muitas noites e muitos fins-de-semana a ordená-los por títulos, por datas e por anos. No meio de cerca de cerca de 700 edições faltaram poucos: ou porque se extraviaram no correio, ou porque foram confundidos entre outros papéis inúteis. Tive o cuidado de manuscrever no princípio de cada encadernação os números que faltam. O que digo do Correio do Planalto digo dos restantes Jornais que houve em Barroso nestes cerca de 75 anos de vida. Fiz entrega dessas coleções, tratadas com todo o carinho, durante a Última Feira do Livro em Montalegre. A sua responsável preparou-lhes uma estante e ali podem ser consultados em conformidade com as regras da Biblioteca.

Penso que será uma das valências mais utilitárias a quanto gostarão de saber o que de mais importante se passou em Terras de Barroso.

Os biógrafos de Bento da Cruz não poderão prescindir dessa consulta. A sua vida e obra, os altos e baixos da vida política, as alegrias e tristezas eleitorais, a vida comunitária passam, obviamente pela consulta dessas coleções.

Ainda agora para afirmar o que deixo dito recorri às coleções do Notícias de Chaves e à Voz de Chaves para encontrar a colaboração de Bento da Cruz. Não só em folhetins das Filhas de Lot, mas também artigos soltos sobre temas vários. Diversos, por exemplo, sobre o Mosteiro de Santa Maria de Pitões das Júnias.

São mais umas trinta coleções dos periódicos de Chaves, de Boticas, de Vila Pouca de Aguiar, de Valpaços, da Régua. Se a Câmara de Montalegre manifestar interesse, poderão reforçar aquele lote de 75 que já ofereci, em Junho de 2015. O que se oferece deve ser valorizado, desejado e franqueado aos utentes. Já que o restante espólio que ofereci em 9 de Junho de 2011 e que ficou registado em ata de câmara de O7/01/2013 e que foi referenciado, em edital nº 04/2013/DAGF, pago ao Correio do Planalto, como publicidade institucional, na edição 650, não deu entrada, por falta de verbas para o acolher nas condições que haviam sido acordadas pelo Executivo anterior.

 

O meu testemunho final

Para acalmar alguns leitores que, ao longo da minha vida ativa, acompanharam as minhas discordâncias em relação a Bento da Cruz deixo aqui identificado o artigo que assinei no Notícias de Chaves em 5 de Agosto de 1967, com o título: Bento da Cruz – apelida-se escritor do sétimo dia, mas ele é, para além da má vontade de muitos, um dos maiores romancistas do nosso tempo.

Imediatamente a seguir a esse título e subtítulo que proclamei, no distante ano de 1967, sobre Bento da Cruz e sua obra até aí produzida, afirmei o que pode ser lido naquele original, quando eu ainda não era coordenador redatorial. Disse mais o seguinte: nascido no coração de Barroso, é Barrosão dos pés à cabeça; e embora ameaçado, como ele confessa, por cartinhas de amigos que o aconselham a mudar de terra para não ser deslombado por causa das suas fábulas a respeito de Barroso, não muda mesmo de terra, nem se faz apátrida. Ele é o que é e, para além da má vontade de muitos, é Bento da Cruz um dos grandes romancistas da sua geração. Por que nascemos e somos partidários do mesmo sentimento bairrista; por que nos banhámos nas águas do mesmo rio e rasgámos as calças de pastor nos mesmos penedos; porque vemos a realidade implantada na mesma cozinha de Gostofrio – a Arca de Noé -; por que conhecemos a relação dos mesmos seres humanos, dos mesmos animais e do recheio da natureza rural... Por que vivemos os mesmos problemas, da fome, do frio, da batata, da emigração, da guerra e do abandono; e sobretudo por que nascemos com o destino marcado de repórteres da mesma realidade social, não condenamos, antes aplaudimos a denúncia que Bento da Cruz expõe nas Filhas de Lot.

Sabemos que o Povo de Barroso não gostou do livro. Melhor: o livro foi mal recebido porque põe em contraste duas classes sociais dominantes: o Padre e a Professora. E crente como é, o povo desta Terra para quem o Padre é uma espécie de ente super-humano, ofende-se com tudo o que for contra a sua dignidade.

A terminar esse testemunho em defesa de Bento da Cruz quando, a propósito das Filhas de Lot, houve reações violentas contra ele pelo descrédito em que envolvia o clero e as docentes da região, exarámos nesse artigo: sabemos ser com mágoa que Bento da Cruz afirmou perante as «cartinhas dos amigos que o aconselhavam a mudar de terra para não ser deslombado.» Fez saber o polémico autor que «deixaria os barrosões em paz, não por medo ao estadulho mas por se convencer de que não vale a pena gastar cera com fraco defunto».

Nós que acabáramos de chegar da guerra e que nos conheciam como referencial de defesa das gentes da Região Barrosã, poderíamos ter aproveitado o ensejo para incendiar a fogueira. Fizemos o contrário. Preparámos esse artigo que existe e comprova: «se os nossos conselhos de algo podem contar, pedimos a Bento da Cruz que não dê ouvidos a esses fracos defuntos, porque desistir é próprio dos fracos e dos fracos não reza a história». Volvidos 49 anos, apesar das altercações sociais, culturais e políticas que envolveram a sociedade, por motivo da mudança de regime que caluniou aqueles que não lhe bateram palmas, antes foram vítimas de algumas dessa euforias exacerbadas, como foi o meu caso, tendo razões para expressar as injustiças de que fui alvo, ontem e hoje, em vez de trazer aqui um desabafo de desforra, entendo ser mais coerente, reproduzindo parte daquilo que escrevi e afirmei, quando dispunha do Jornal que coordenei até 1975 e outros nos quais, colaborei nos 63 anos de militância jornalística a sério.

  

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publicado às 23:04

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Recebi a seu tempo um convite que aqui exibo,  dando conta de mais um reconhecimento publico por parte de quem nos meus culturais do país está atento ao labor intelectual do poeta, do escritor e do jornalista notável que e Barroso da Fonte. Como não pude estar presente nesse evento, aproveito para me me associar a essa honraria, com a transcrição do sobre o insigne transmontano recebi:

"Na tarde do último Sábado (28) decorreu no Ecomuseu- Espaço Padre Fontes, em Montalegre, a apresentação do novo livro de poemas de Barroso da Fonte, apresentado por António Chaves e com um numeroso e qualificado público. Ao livro chamou o autor Barrosão Poesia, amoras & presunto, tem 228 páginas e a chancela da Tartaruga editora, com sede no Porto. A escritora Manuela Morais, fundou esta Editora com o intuito de homenagear seu marido, Fernão de Magalhães Gonçalves, considerado o mais fiel intérprete da obra Torguiana, era Leitor de Português na Universidade de Seul, quando (em 1988), morreu subitamente, ao lado da Esposa. Tinha 45 anos de idade e, já nessa altura, era autor de dúzia e meia de livros, sobre alguns dos mais célebres autores Portugueses e europeus. Na sequência do desaparecimento desse talentoso poeta e ensaísta, Manuela Morais, também ela licenciada nessa área do conhecimento literário, além de editar e difundir a obra deste Autor Transmontano, teve o nobre propósito de laurear, anualmente um autor nacional com o «Prémio Nacional de Poesia, Fernão de Magalhães Gonçalves». Como Barroso da Fonte completou em 2015 meio século de autor, em Livro e 62 de jornalismo, regional e nacional, foi o escolhido para receber esse galardão que consiste em ver publicada uma obra da sua autoria e receber em ato público, na sede do seu concelho de origem, essa distinção.

A cerimónia ocorreu, simbolicamente, no Ecomuseu, cujo patrono é o Padre Lourenço Fontes, ex-colega e amigo pessoal do laureado que viu à sua volta cerca de uma centena de ex - condiscípulos, amigos e admiradores. Presidiu à cerimónia o Mestre David Teixeira, vice-Presidente da Câmara, por ausência comprometida antes de se conhecer a data do evento. Viveu-se ali uma tarde muito gratificante para quem pôde assistir. A mesa foi constituída pelo Representante da autarquia, da Directora da Tartaruga, pela Viúva de Nadir Afonso, pelo Presidente da Direcção da Academia de Letras de Trás-os-Montes que se deslocou, propositadamente, de Lisboa, para apresentar a obra e pelo autor da mesma. Todos usaram da palavra para justificarem a sua representação e o gosto que tinham em participar nessa cerimónia festiva, para quem ali nasceu há 76 anos e passou uma vida inteira, cheia de dificuldades e de valorização para ser um vencedor, como as várias homenagens que têm vindo a acontecer desde Lisboa, ao Porto, a Bragança, a Vila Real, Boticas e Montalegre revelam. Recorde-se que, já durante o ano em curso, juntamente com José Dias Baptista, a Câmara os havia distinguido,em 6 de Junho. Mas antes disso foi a Câmara Municipal de Vila Real, através do Grémio Literário, dia 25 de Abril e foi o Fórum galaico Transmontano, em Boticas, durante o Encontro de escritores luso-galaico que ali teve lugar.

Barroso da Fonte, no uso da palavra, agradeceu a todos os presentes e ausentes que lhe fizeram chegar mensagens de felicitações. Começando por agradecer à Tartaruga Editora e à Câmara Municipal, afirmou: quando a escritora Manuela Morais, me anunciou que em 2015, seria eu o autor distinguido com o prémio nacional de Poesia Fernão de Magalhães Gonçalves, pelos meus 50 anos de vida literária, ocorreu-me a ideia de partilhar esse prémio com mais três figuras Transmontanas (já falecidas): Fernão de Magalhães Gonçalves, patrono do Prémio, Nadir Afonso e Miguel Torga, além de Artur Maria Afonso, pai de Nadir, nascido na Casa da Crujeira em Montalegre.

Gorete Afonso, Maria José Afonso e Fátima Rodrigues, leram poemas do livro que tem capa e contracapa ilustradas, a cores, com reproduções de Nadir Afonso: a primeira produzida em 1939 e a segunda em 1938. Aquela simboliza a serra do Larouco com a Portela de Urzeira (hoje Codeçoso) a seus pés. Esta reporta-se à ponte Romana sobre o Cávado. Ora BF nasceu em Codeçoso no preciso ano em que Nadir concebeu essa obra prima. Ambas confirmam a ligação umbilical desse genial Pintor às terras onde seu pai, Artur Maria Afonso nasceu e começou a trabalhar.

Diga-se ainda que o Padre Fontes leu do Correio do Planalto uma notícia de 1988, noticiando a morte de Fernão de Magalhães Gonçalves. O prefácio do livro tem a assinatura de Ernesto Rodrigues, da Universidade de Lisboa que na p. 9 diz: «Fernão de Magalhães e Barroso da Fonte triangularam, numa rara felicidade, com Torga, figura que perpassa em vários momentos daqueles, cristalizando essa tripla relação nas missivas e iconografia de Tora e Eu – Correspondência dele para mim (2007), de BF. Reúnem-se, assim, espíritos de eleição neste volume que honra um dos mais devotados cidadãos às causas pátrias e regionais, interventivo e livre. Esta edição – de Barroso da Fonte - dá a altura de um Poeta e a sua interioridade, como nenhuma crítica fará. Contra Tempo Infecundo, neste solo cresce um grão de humanidade».

Na cerimónia da entrega e apresentação da obra viam-se, entre outras personalidades: a deputada Manuela Tender, o Presidente da AM de Montalegre, os antigos presidentes das Câmara de Montalegre, e de Boticas, respectivamente: Carvalho de Moura e Sousa Fernandes, o Juiz Conselheiro Custódio Montes, Maria Isabel Viçoso, o médico Fernando Calvão, o inspector José Dias Baptista, o Padre Lourenço Fontes e Alípio Afonso, todos escritores; Margarida Canedo, Fundadora e Directora do Antigo Colégio de Montalegre; Natacha Fontes e Henrique Barroso, docentes universitários, da Universidade do Minho, a Vereadora da Educação, Fátima Fernandes, etc. Uma sessão cultural cheia de sol de Outono que mais parecia de pleno Verão.

                                                                                                                João Pedro Miranda

Nota: durante a sessão foi lido o seguinte soneto, dedicado ao homenageado pelo autor: Custódio Montes, Juiz Conselheiro":

"Homenagem

28.11.2015

Do nosso sonho vem a criação.

Inata à nascença nem se crê

Que quando formos homens à mercê

Das circunstâncias venha a inspiração

Às vezes tem-se força e coração

Força dentro de nós que não se vê

Um coração que ama e não lê

Mas para o sonho andar falta a razão

O Barroso da Fonte teve um sonho

De prosa e poesia bem risonho.

A pulso escalou vereda estreita

Subiu ao promontório e ali ficou

A obra engrandeceu e aumentou

Merece a homenagem aqui feita

Custódio Montes".

 

 

 

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