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As queixas não são só minhas

por aquimetem, em 19.10.17

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Não sei se a Carris já passou ou não para a administração municipal de Lisboa, mas sei que Carnide tem uma Junta de Freguesia empenhada na defesa dos seus fregueses e esse é o assunto que quero expor e que mais importa. Hoje, 19 de Outubro, precisei de me deslocar a Benfica, Av. Grão Vasco, com hora marcada para as 10h30. Eram 09h55 e lá estava eu na paragem do 729 - junto ao Metro, lado norte - a fim de nele me transportar, pois consta nos horários afixados em placar que de 18  em 18 minutos circula um autocarro. Acreditei. Vai de esperar, esperar,  e só às 11h00, é que apareceu um 729 ! Vergonha, para quem prometeu retirar aos privados para melhorar os transportes públicos. Perante isto e para evitar repetições destas, informo e recorro ao dinamismo do Sr. Presidente da Junta de Freguesia, Fábio Sousa para que interceda junto de quem de direito no sentido de cuidar melhor os utentes  da carreira 729, e dota-la com placares electrónicos onde conste a chegada do autocarro, por forma a melhor orientar e bem servir quem paga como os demais que gozam dessa benesse informativa. Não esquecer que é a única carreira que liga o "bairro da policia de Carnide" com a estação da CP de Benfica e a zona Ocidental de Lisboa. As queixas não são só minhas

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publicado às 14:26

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Por: Barroso da Fonte

A reversão marxista deste axioma foi introduzida na política portuguesa por Pimenta Machado,há duas décadas, quando dirigente do Vitória de Guimarães.
Quase parece que a vinda do Papa a Portugal trouxe consigo a doença da vergonha e a raíz de todos os males. Os meses de Junho e Julho que se seguiram a Maio puseram a nú as fragilidades da democracia. Não há memória de tantos e tão trágicos atropelos à normalidade do sistema. Pior do que o incêndio de Pedrogão, Góis e Castanheira de Pera e do assalto ao paiol de Tancos só o terramato maior do que o de 1755 ou uma Batalha de Aljubarrota.
Se ainda houvesse nos governantes uma réstia de vergonha, não seriam apenas os três secretários de estado, nem a ministra da administração interna e o ministro da defesa a demitir-se ou a ser demitido. Todo o governo deveria entregar o poder ao Presidente da República e demitir-se do comando dos destinos do país.
O jornalista Alberto Gonçalves, no Observador do último fim de semana foi claro: « é gente literalmente abjecta. Perante a tragédia, decretam o caso resolvido. Perante o desleixo, lembram desleixos maiores. Perante as dúvidas, confessam sentimentos. Perante as câmaras. Dão abraços».
António Barreto no suplemento do Correio da manhã de 9 do corrente respondeu a uma pergunta sobre o estado da nação: quando morrem 47 pessoas queimadas numa estrada nacional e desaparecem armas de guerra de paióis do Exército não lhe lembra o país que recebeu quando foi para o governo?»
- a morte daquelas 47 pessoas inocentes é mais dramática do que o roubo de armamento perigoso. O passa-culpas é uma das piores características da governação atual e talvez anterior. Para qualquer ministro, secretário de estado ou diretor-geral e ainda mais para os primeiros ministros, qualquer problema grave e sério é culpa do governo anterior. Isso é uma mediocridade política, de uma falta de honradez e de honestidade; e é, sobretudo, uma covardia e um oportunismo moral. Muito chocante. Quanto às florestas, há duas teorias: a de que somos todos culpados, pelo menos, desde Viriato, ou antes e depois há a de que as coisas têm princípio, meio e fim»
Questionado sobre se os partidos que suportam o governo são democráticos ou conseguem viver em democracia, António Barreto declarou que a «demoracia não é sagrada, nem vem em nehuma biblia. Ela é um arranjo entre classes sociais e forças políticas. Não é sagrada.É um estado e também um método de viver em coletivo. Não deve ser transitória nem instrumentalizada».
Sobre as férias em tempo de tão grave crise do primeiro ministro, António Barreto que foi Ministro da Agricultura, quando criou o slogan «a terra é de quem a trabalha» confessou que «na semana a seguir aos incêndios, andou a dar abraços e quando há tanta coisa para investigar, revelar, apurar, discutir, debater, reformar, na semana dos roubos, em Tancos, não há férias que resistam a isto.Ele deveria estar em Portugal em dez minutos e não dez dias ou uma semana depois».
António Costa tem sido protegido pelo guarda-chuva de Marcelo. Abandonou o país na hora mais grave. Duas catástrofes das piores da História de Portugal, provocaram uma terceira: o vazio de poder. Em vez de imitar ou fazer imitar o exemplo de Jorge Coelho que mal soube da queda da ponte de Entre-os-Rios, imediatamente se demitiu. Não esteve ele à espera de culpar os governantes que o antecederam na mesma área da governação.Foi pioneiro na moralidade política que deve fazer escola. Seguiram-se outros que fizeram o mesmo como o contador de «estórias». A ministra da Administração Interna, mais o ministro da Defesa e também o do ambiente tinham obrigação moral de fazer o que fez Jorge Coelho.Tiveram mais culpas os de hoje do que os de ontem. O PS de Jorge Coelho, era muito mais coerente com a ética política do que este PS de Costa que chegou ao púlpito, perdendo as eleições e chegando a primeiro ministro, aos ziguezagues do radicalismo mais paradoxal.
Enquanto António Costa esteve de barriga ao Sol fora do País, Portugal perdeu respeito, credibilidade e coerência. Não se deu tanto pela sua falta, porque o Presidente da República supriu, com vantagem, aquela ausência. Mas internamente reviveu-se o ditado: «Patrão fora, dia santo na loja». Esse desnorte mexeu com as Forças Armadas. Feriu o prestígio das instituições mais necessárias à defesa da Ordem, da Justiça e da paz social. Nunca em 42 anos de democracia um qualquer governo esteve tão fragilizado, um povo tão confuso e um futuro tão sombrio.
Na entrevista que A. Barreto concedeu dia 9 ao caderno do CM, afirmou que Costa é muito hábil. Mas hábil, ao contrário de ser ágil e pragmático, «já é um qualificativo venenoso, pois quem tem muita habilidade é um habilidoso e quem é habilidoso, também é manhoso, também faz artimanhas e ele é capaz de ter isso. Por exemplo, não sei o que está ele a fazer, agora, em férias, fora de Portugal». Este primeiro ministro, com um PR que não o abrigasse e o substituísse, sobretudo nas horas azarentas, não teria hoje a popularidade que tem perante o eleitorado. Há por aí uma empresa de sondagens, cujo responsável é militante socialista que aparece regularmente a branquear as horas impopulares. Armando Palavras, no Blog Tempo caminhado de 9 do corrente, escreveu: «Em 2015, cerca de meio ano antes das eleições de Outubro, dava ao PS a maioria absoluta. Em meio ano essa maioria absoluta escorregou para uma derrota estrondosa. Se não fosse a incoerência dos partidos da esquerda radical, António Costa, estaria hoje fora da quadratura do circulo porque Seguro e os Seguristas já teriam «arrumado» esse habilidoso, manhoso e oportunista.
O debate sobre o Estado da Nação de quarta-feira, 12, no Parlamento foi a consagração da máxima marxista que Pimenta Machado retirou do Futebol e a introduziu na política Portuguesa:
«O que hoje é verdade, amanhã pode ser mentira». Toda a esquerda eriçou o pelo, abjurou os valores programáticos e beatificou António Costa e os seus muchachos, a começar pelo galarispo João Galamba, só comparável ao senhor José Manuel Coelho, da Madeira. Nem à pateada se cala!

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publicado às 13:47


Trás-os-Montes marca o ritmo da cultura.

por aquimetem, em 14.06.17

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Por: Barroso da Fonte

Na semana em que rebentou o escândalo no Convento de Tomar que «Sexta às 9» da RTP, difundiu e que – se não fosse a geringonça - já teria exigido a demissão do ministro da Cultura, cá por cima, continuam as estruturas culturais a marcar o ritmo que se faz e que os urbanos não conseguem vislumbrar.
Cá por cima fazem-se coisas, coisas boas, bastando sacudir os teares, repor as campainhas das vacas, no dorso dos gericos ou das cabras e carneiros, por troca com as vacas, que já não há quem as toque. Desses guizos, dessoutros chocalhos que os Caretos usam nas festas do carnaval e desses cornos retorcidos, que se colocam atrás das portas da cozinha, para afastar as bruxas, faz-se melhor festa do que essoutra que enche os ouvidos das moças atordoadas, com os auscultadores, rua fora.
Se as televisões mostrassem o que por cá se faz, os alfacinhas não se distraíam com a feira do livro que é grande no espaço e tem papel a mais e livros a menos.
«Cá por riba», as feiras do livro, têm os livros do povo que não entram nas Fnac´s, na Leya, no Circulo do Leitores.
Há um fosso cada vez mais profundo, entre o norte e o sul, entre a cidade e o campo, entre os chinelos de pé raso e o salto alto de quem nunca andou descalço.
Desde o Espaço Miguel Torga, em S. Martinho de Anta, à Biblioteca Adriano Moreira, em Bragança, que alberga a Academia de Letras de Trás-os-Montes; desde a Feira do livro, em Montalegre, ao Grémio Literário, de Vila Real, ao Centro Cultural Aquae Flaviae, ao Fórum Galaico- Transmontano, em Valpaços; desde o Festival Literário de Bragança, às Feiras do livro em Mirandela, tudo mexe e remexe, gerando solidariedade, por troca com os moinhos de centeio, de todos os rios de Trás-os-Montes que mataram tanta fome, a contrastar com tão ignóbil esquecimento dos dia de hoje. As gerações que formam, hoje, os quadros da vida ativa do País, morrerão sem nunca saberem o que foram os moinhos, que importância tiveram na vida das pessoas e como
é doloroso, não se fazerem levantamentos sobre aqueles que existiram, alguns dos quais, caem de pé, como as árvores. Foi um tipo de construção artesanal, que demonstra a capacidade humana daqueles que nos antecederam e envergonha os professores que não souberam, nem quiseram ensinar, os artesãos que não reivindicaram a sua continuidade e, sobretudo, os políticos locais. Quantos autarcas se deram ao cuidado de mandar fazer um levantamento e reconstituição de património?
Enquanto escrevo estas desconexadas ideias, obviamente breves, reparo na televisão que mostra as cerimónias do Dia de Portugal. Este ano com cenário é diferente. Do Porto veio o nome de Portugal. É simbólica esta escolha. Mas continua a ser mal ensinada a História nacional. É que Portugal não começou noutro sítio, que não fosse na Batalha de S. Mamede, em Guimarães. E essa «Primeira tarde Portuguesa» não aconteceu em 10, mas em 24 de Junho de 1128. Foi há 889 anos. Tudo o mais que se seguiu faz parte da odisseia Portuguesa. Em 1580 faleceu Luís de Camões. Foi há 437 anos. Mas o dia dos nossos anos, é aquele em que nascemos. A data de 10 de Junho menoriza a Pátria que já tinha 452 anos de idade, quando morreu Camões.
Muitos dos que nos têm governado nestes quase nove séculos de História, mamaram nela mais do que lhe deram. Muitos daqueles que levaram a vida a escrever história, mercantilizaram mais do que deviam. E, alguns desses usaram-na para nela se perpetuarem. Autofagia em plenitude.

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publicado às 18:46


E as crianças Senhor !

por aquimetem, em 01.06.17

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Do Poeta e Prosador João de Deus Rodrigues recebi este belo poema às Crianças dedicado:

“E as Crianças, Senhor!
Homens parem de gritar,
E ouçam o silêncio do vento.
E meditem nos segredos do mar,
E na imensidão do firmamento.

E contemplem, também,
A coisa mais preciosa que o mundo tem:
Uma criança.

Reparem na candura do sorriso dela, a brincar
No colo de sua mãe, no aconchego do doce lar.

Longe,
Bem longe, do alcance de déspotas avarentos,
Que passam momentos
A jurar que só querem o bem,
De todas as crianças que o mundo tem.
Porque elas, lindas e queridas,
São anjos inocentes, o melhor das suas vidas.

Mas, isso, é só ruído.
Palavras dolentes, sem sentido,
Dos que não querem ver
Tanta criança a sofrer,
Por esse mundo além,
Abraçadas ao peito da sua mãe,
Chupando peles gretadas,
Que a sede e a fome ressequiram,
E jazem sentadas, junto do seu amado Ser,
De olhos enxutos, sem lágrimas para verter.

Ó desumanidade!
Ó crueldade!
Ó Senhor meu Deus,
Dizei-me por favor,
Porque há tanta criança abandonada,
A perecer com sede e com fome,
Torturadas pela dor,
Com a complacência de parte da humanidade?

Enquanto ao som de trombetas,
Em salões forrados de veludo,
Há criaturas que fazem juras, e tudo,
Dizendo que só querem o bem
De todas as crianças,
Porque elas são o melhor que o mundo tem.

Ó desfaçatez!
Ó Ingratidão!
Porque não calam elas a sua usura,
E refreiam a sua ambição?

E não pensam, por uma vez,
Que as migalhas que sobram da sua mesa,
E o escorrer das suas taças de cristal,
Bastavam para não morrerem,
Com fome, com sede e com mal,
Tantas crianças que juram amar.

Sim, ó vós?
Que em verdade sabeis,
Que elas estão a padecer.
Enquanto assobiais,
Julgando-vos imortais.

Que mundo cruel,
O vosso, com tão amargo fel!

Guardai as vossas lágrimas,
De serpente rastejante.
Guardai os vossos lamentos e ais,
Mas não venham dizer, de ora avante,
Ou jamais,
Que não sabeis, de verdade,
Dessas crianças com tanta necessidade.

Ou será que o fazeis,
Para melhor adormecerdes
Sobre o peso da vossa consciência!
Que julgais ser leve,
E pesa mais que o bronze.
Enquanto, não longe,
Se fina, num contínuo permanente,
Tanta criança inocente.

Não. Não venham com a falsa bondade,
Nem com a vossa sacra fé.
Porque isso mais não é
Que a negação da caridade.

O que me leva a acreditar,
Que nem os dóceis vermes da terra
Hão de querer tragar,
Os vossos corpos fedorentos.
E as moscas, e as formigas,
E até os ratos, seguirão tais intentos.

Ide para os Infernos,
Criaturas com tais sentimentos.

Ah!, se eu pudesse lançar um raio
Aos vossos corações de besouro,
Que vos afogasse nos palácios de ouro,
Erguidos sobre o sofrimento de tanto inocente,
Eu o faria, num repente!

Sumam-se!
Porque até o doce mar profundo
Não vos há de querer sepultar.
Nem as flores silvestres,
Emprestar o seu perfume.

Evaporem-se,
Corja de malfeitores.
Para que haja um mundo melhor,
Mais generoso e fraterno,
No amor e na esperança,
Com o sorriso de uma criança!

Mas não vos esqueçais,
Que partis sem o perdão dos que cá ficam.
E sem a misericórdia e contemplação,
Dessas crianças que estão no Céu,
Enviadas pela vossa mão.

In Livro “O acordar das emoções” – Tartaruga Editora”.

 

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publicado às 14:15


Vale por todo o resto.

por aquimetem, em 01.05.17

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 Só o 1º de Maio de 1974 foi espontâneo, sentido e calorosamente vivido, a partir daí, nem hoje com a desconchavada gerigonça, os representantes dos trabalhadores se juntam e se entendem para servir a classe operária e o país. As organizações sindicais mais ao serviço dos partidos que das classes que representam, quando chega esta data vai de testar forças e como pavões emproados exibir a roupagem que mais agrade ao pagode…

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 Em Portugal, com o Estado Novo, não se festejava a data, só a partir de Maio de 1974 é que livremente passou a ser festejado e a feriado nacional. Nem o facto da Igreja consagrar a data a São José Operário, demovia o poder político da proibição de celebrar o significativo evento. Com a designação de Dia do Trabalhador, Dia do Trabalho ou Dia Internacional dos Trabalhadores é uma data anualmente celebrada no dia 1º de Maio, em muitos países, sendo feriado em Portugal, e noutros países de expressão portuguesa como Brasil, Angola e Moçambique. Mas ainda quanto à forma varia consoante o gosto dos operantes, desta vez em Portugal temos a CGTP a promover “festivais” em cerca de 40 localidades. E em Lisboa, com vários eventos e durante a tarde com desfile entre o Martim Moniz e a Alameda  D. Afonso Henriques.

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Já a UGT decidiu festejar a data em Viana do Castelo, com o tema: “Crescimento, Emprego, Mais Justiça Social”. E como faz parte do sistema... a intervenção politico-sindical do secretário-geral da organização Carlos Silva, e da presidente do Centro Cultural da cidade, Lucinda Dâmaso. 

Bem mais importante para quem festeja a Vida e a defende é a MANIFESTAÇÃO CONTRA A EUTANÁSIA /SUICÍDIO ASSISTIDO que às 15h00 deste 1º de Maio vai ter lugar no Largo de São Bento-Lisboa, com momento de oração na Basilica da Estrela, às 15h30. Vale por todo o resto.

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publicado às 14:30

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Por: Barroso da Fonte

Como não tenho dinheiro para comprar a biografia de Jorge Sampaio, elaborada por José Pedro Castanheira, limito-me a ajuizar sobre o interesse da obra, pelas recensões que vou lendo nos mass media.
Nas 1062 páginas deste mais recente volume que tem a chancela da Porto Editora e da Edições Nelson de Matos, Sampaio «fala da crise política por si gerida no verão de 2004, quando Durão Barroso abandonou a chefia do Governo e Pedro Santana Lopes se posicionou na linha de sucessão, contrariando a posição do PS e dos partidos da esquerda, que pretendiam eleições antecipadas».
Sampaio reconhece que voltaria a dar posse a Santana Lopes, apesar de não ter o poder legitimado por uma vitória nas urnas, mas o seu, então, chefe da Casa Civil, João Serra, nota que foi exigida "continuidade nas políticas", designadamente nas Finanças e nos Negócios Estrangeiros, e vetado o nome de Paulo Portas para esta última pasta».
Lê-se na mesma fonte que se «conhecia a ambição de Paulo Portas em ser ministro daquela pasta, mas devido ao seu passado eurocético, o Presidente alertou para as dificuldades em o nomear", refere João Serra. Portas terá ficado "magoado" por não ter chegado aos Negócios Estrangeiros, o que viria a acontecer, anos mais tarde, durante o executivo liderado por Pedro Passos Coelho.
João Serra afirma também que foi Jorge Sampaio quem sugeriu o nome do embaixador António Monteiro, para chefiar a diplomacia e que Santana Lopes concordou de imediato».
O tom destes «episódios rocambolescos do consulado de Santana Lopes» continuam a ler-se nesta biografia, bem estruturada e redigida pelo biógrafo que se especializou neste género de obras referentes aos mais mediáticos personagens que ocuparam o alto cargo da Presidência da República.
Neste contexto se diz que Jorge Sampaio justifica a utilização da chamada «bomba atómica» com a alteração da situação política, no que é corroborado pelo seu conselheiro.
Ao ler, agora, o tom com que Sampaio fala de Santana Lopes faz-me recuar a 1990, quando ele era secretário geral do PS e eu tinha tomado posse de diretor do Paço dos Duques de Bragança. Guardo comigo a pasta dos 20 mil contos de prejuízo real que este Palácio e Museu Nacionais davam por ano ao Estado Português. O PS local fez saber ao Secretário Geral que eu pretendia corrigir essa situação ruinosa, depois de um estudo que gizei e que pus em marcha. Sabia eu que era possível abrir aquela unidade museológica, em todos os dias da semana e em todas as horas úteis do dia. Pedi autorização e fui autorizado, apesar de um quadro de pessoal reduzido a 50% do previsto no quadro. Recorri ao Centro de Emprego para destacar candidatos ao primeiro emprego, ou subsidiados com o perfil desejado. Com essa medida não gerei encargos, mas redobrei os lucros. Não havia um posto de vendas e destaquei dois guardas do museu que haviam sido carpinteiros a retirarem madeira da zona habitacional destinada a residência do diretor, transformando-a em balcão de vendas. Não existia qualquer roteiro, quer do Palácio, quer da cidade. E eu próprio os escrevi, com edição e tradução quadrilingue: português-francês- inglês e alemão. A Elo tinha essa autorização a nível de todos os palácios e museus. Ainda hoje esses roteiros são fornecidos, com 30% para receita do Museu.
Entretanto a Pousada de Santa Marinha da Costa fez-me uma proposta para explorar a zona presidencial, que desde 1959 até hoje, apenas em 39 ocasiões foi utilizada por alguns Presidentes, o último dos quais o Dr. Mário Soares. O PS local estava irritado com toda essa mudança. A minha proposta fora aprovada superiormente. A Enatur pagaria 100 mil escudos/noite, por cada uma das duas suites e 50 mil pelos 5 quartos intermédios. O Paço passaria a ter de lucro líquido mensal: 13.500 contos que nessa altura era muito dinheiro. Jorge Sampaio fez chegar um panfleto à cidade em que me censurava por estar a transformar a «Corte real» em cortes de bois, numa alusão metafórica aos meus tempos de pastor de vacas e da «vezeira».
Tão sórdida campanha levou-me ao desânimo. Apesar de chegar tarde, o despacho autorizou-me a por em prática esse projeto, em parceria com a delegação do Norte da Cultura. De qualquer modo quase dupliquei o número de visitas pagas, controladas por bilheteira. Os preços eram metade daqueles que se praticam hoje. O montante da dívida passou a montante do lucro, aquele espaço nobre passou a ser uma espécie da Casa de cultura. Entre a hora de encerramento e a hora matinal da abertura ao publico, o átrio e as antigas cozinhas, passaram a espaços alugados para convívios, cerimónias de casamentos, empresas e outras cerimónias.
Jorge Sampaio, cujo pai era natural do concelho de Guimarães, foi o primeiro a não utilizar a Residência Presidencial, no Paço e também o primeiro a não aceitar que o 24 de Junho fosse reivindicado como feriado nacional. Aqui mesmo disse que não mexeria nos símbolos nacionais. Mas o PS Vimaranense teve, mesmo assim, a coragem de colocar-lhe uma placa, junto à Estátua do I Rei. A democracia tem caras para todos os gostos.

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publicado às 16:32


Quem as faz que as pague

por aquimetem, em 12.04.17

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 Em 2009, quando Guimarães soube que a ministra Isabel Pires de Lima, tinha promovido Guimarães a Capital Europeia da Cultura, aqueles que, desde 1990, esfregavam a barriga ao sol, graças ao poder totalitário que ali se instalara e que garantia tacho e penacho a alguns dos seus eleitores, redobraram, com a certeza de que, aqueloutros que não tinham tido esse privilégio sendo do mesmo clube político, iriam desforrar-se à mesa desse banquete, garantido até 2015, com os 111 milhões de euros provindos dos fundos comunitários e do orçamento geral do Estado, cinco anos de fartura. O «rei» da festa era o mesmo, acolitado por camaradas vips e alguns seus protegidos. Para encobrir essa festança foi congeminada a Fundação Cidade de Guimarães, para o que bastou encarregar um outro camarada da freguesia do Benfica, em Lisboa que se especializara no fornecimento de formulários para esse tipo «geringonças». Sendo Guimarães viveiro de muitos e bons juristas, logo esse ex-deputado que conhecera, anos antes na AR, o «rei» vimaranense, entregou 30 mil euros pelos estatutos da CEC. Estatutos feitos à medida do «dono disso tudo», O mesmo «reizete», por inerência de funções, passou a líder da CEC que convidou Cristina Azevedo, para diretora executiva, apenas dependente do dito cujo. Foi ele que estipulou os vencimentos e outras mordomias para todos os membros dos três órgãos, incluindo a senha de presença para ele próprio. Esses vencimentos vigoraram à volta de dois anos. E eram tão estapafúrdios que foram reprimidos e censurados no Parlamento. Baixaram 30% e, mesmo assim, ainda superiorizavam os do chefe de Estado. A dada altura Cristina Azevedo contratou o atual Presidente da Câmara de Braga, através de um contrato, a termo certo. Como ela não deu conhecimento ao «reizete», ele próprio, sem consultar os restantes membros do Órgão, despediu Cristina Azevedo. Este despedimento selvagem, enraiveceu o capataz e «dono disso tudo», apenas pelo facto de Ricardo Rio ser da oposição. Um tsunami nacional! Jorge Sampaio, que tinha sido convidado pelo «dono disso tudo», para Presidente do Conselho Geral, induziu Cristina Azevedo, a aceitar o despedimento, regressando à Neuronext. E que, posteriormente, seria ressarcida da diferença de vencimento. Ela aceitou mas pelo sim pelo não, pediu uma indemnização de 405.395,88 euros. E acaba de ser vencedora desse contencioso. O «saneamento político» que o «reizete» provocou, redundou em mais um «desemprego»: Carla Morais que fora contratada por Cristina Azevedo teve o mesmo desfecho. Carla Morais levou o processo até ao fim. Em Julho de 2016 o Tribunal dera-lhe razão, tendo de receber 206 mil euros que ainda estão por pagar. Do acordo conseguido após conversações, entre Jorge Sampaio e Cristina Azevedo, esta deveria receber 405.395,83 euros. Entretanto a CEC encerrou em 2013. As responsabilidades passaram para a Câmara. Mas o julgamento para ultimar os penduricalhos da CEC, só terminou em fins de Março de 2017. A Guimarães Digital confirmou a notícia do JN do dia 1 de Abril, informando que Cristina Azevedo reclamava uma indemnização de 422.544, 63 €, adiantando que a decisão ainda é passível de recurso, no período de 30 dias, a iniciar-se em dia 3 de Abril. Para já o Tribunal condenou a Câmara, a Direção Geral do Tesouro, mais o Gabinete de Estratégia Planeamento e Avaliações Culturais ao pagamento de 249 mil euros.
António Magalhães e Jorge Sampaio, deveriam ser responsabilizados por esses pagamentos. Quem as faz que as pague. É uma das obrigações da verdadeira democracia.

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publicado às 22:34

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Por: Barroso da Fonte

 Nascida em 1905, em Lisboa, nos últimos tempos da Monarquia, «tem-se portado como o movimento dos planetas, ora em processo de regressão, ora em processo de progressão», nas palavras do último presidente da Assembleia Geral Jorge Valadares.
Tem a idade que teria meu Pai se fosse vivo. E eu que já estou na idade com que ele morreu, significa que essa Instituição já prestou relevantes serviços à Comunidade que ela representa e ao mundo da Lusofonia. Ela fez com que o seu exemplo fecundasse outros projetos semelhantes quer no país, quer na Diáspora, onde os Transmontanos chegaram, em busca de novos mundos e da sua própria sobrevivência pessoal e familiar.
Em Portugal ainda hoje funcionam as Casas do Porto, Coimbra, Guimarães, Braga, Tomar, Algarve e Viana do Castelo. Umas estão em plenitude, com sede própria, como Lisboa, Porto e Braga. Outras pagam renda como Guimarães e Coimbra e outras têm espaços reservados, onde regularmente confraternizam e tomam decisões. Penso que é esse o caso de Tomar, Viana do Castelo e Algarve.
Em Luanda (Angola), funcionou em instalações próprias, o Clube Transmontano que foi o ponto de Encontro de muitos Transmontanos que iam do «puto» ou por lá andavam a precisar de apoio. No Brasil há diversas casas e núcleos, em S. Paulo e no Rio de Janeiro. Nos Estados Unidos existe a Casa de Trás-os-Montes e Alto Douro em Newark. E também em França existem diversos núcleos, uns mais ativos do que outros, mas todos com fins solidários com as pessoas e com as terras de origem. Foi da Casa-Mãe de Lisboa que, em 1920 e em 1941, se realizaram os dois Primeiros Congressos de Trás-os-Montes, que tiveram por palco cidades dos dois distrito de Bragança e de Vila Real. Em 2002 voltou a realizar-se o III, mas já com a envolvência de todas as Casas Transmontanas do continente que, anos antes, fundaram a Federação das Casas Regionais. Ato que decorreu na congénere do Porto. Esse Congresso reuniu, cerca de 1.200 participantes, para o que também a Associação dos Municípios que tinha sede em Murça, delegou no Presidente da autarquia de Bragança, Engº Jorge Nunes que foi o grande obreiro desse acontecimento. Se no I congresso teve Óscar Carmona, Presidente da República, a presidir, também o III teve Jorge Sampaio, em idênticas funções. Neste Jornal e em toda a imprensa regional de Trás-os-Montes e Alto Douro, entre 1980 e 2002, pugnou-se porfiadamente por esse evento, cujas conclusões têm vindo a cumprir-se. Retomando a razão do título desta crónica cabe-me saudar a equipa dos 16 heróis que – finalmente - aceitaram prolongar a história desta centenária instituição regionalista, tomando posse dia 13 do corrente. Pelo que lemos na imprensa e nas redes sociais, foi muito, muito difícil encontrar Transmontanos com garra para reanimar a Casa-Mãe de Lisboa.
A sua sede já passou por vários espaços. Até que mudou para o Campo Pequeno, para um terceiro. Por alturas do centenário a Casa tentou construir um prédio de raiz e chegou a ter terreno próprio na zona de Belém, junto ao Tejo. Através do Jornal da Casa fez-se uma campanha de angariação de fundos para essa construção. Só que a morosidade e o desânimo de quem pensa dominar as situações, é mais forte do que os dominados. E o terreno de Belém acabou por regressar à Câmara de Lisboa, por troca com um edifício para reconstrução. O novo presidente incluiu no seu programa o IV congresso Transmontano. Foi um dos compromissos do III. Já passaram 15 anos.
O III Congresso Transmontano distanciou-se 61 anos do II. Quase tanto tempo como a média de vida de uma pessoa normal. Embora tenha sido, provavelmente, a maior manifestação conjunta de Transmontanos em torno da ligação ao berço daqueles que o tornaram possível, só decorreu com o sucesso que ninguém pode negar, graças às Casas Regionais e ao indesmentível entusiasmo de algumas Câmaras Municipais. Volvidos quinze anos quase ninguém mais falou ou escreveu sobre ele. Há uma honrosa exceção que não sendo, jornalista profissional, nem dispondo de muito tempo para aflorar este tema, foi o ex-autarca de Bragança, Jorge Nuno que no Jornal Nordeste, de Bragança, assinou numa sequência de quatro extensos relatos que foi pena não serem reeditados em livro próprio, com mais alguns elementos históricos que servissem de ponto de partida para os mais novos que nos anos, entretanto decorridos, já esqueceram.
Foi ele que deu a cara para que outros saíssem da sombra. Quase sempre é assim: uns têm ideias, arriscam com todas as capacidades pessoais e profissionais e lançam-se às feras. Os mirones espreitam e, quando notam que essa aventura vai dar mediatismo, atiram-se de pés e mãos e arrogam-se à liderança dessa fama. Em cima do acontecimento podem os observadores aperceber-se
de que houve aproveitadores dessa empreitada. Passados alguns meses, os obreiros que mereciam palmas voltam ao silêncio do quotidiano. Os espontâneos partem para outras empreitadas, em busca de mais sucesso alheio que faz deles os reizetes de todas as manifestações do povoado.
Ocorre-me mexer numa proposta que ficou de realizar-se alguns anos depois, numa quarta edição.
Já passaram quinze anos. A nova direção da Casa-mãe de Trás-os-Montes, com sede em Lisboa, desde 1905, relançou a ideia. Como fiz parte da comissão organizadora do III, gostaria muito de ver essa promessa cumprida durante o quadriénio em curso.

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publicado às 11:26

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Do Poeta e Prosador João de Deus Rodrigues transcrevo estes poemas, assim:

quarta-feira, 22 de março de 2017
A água é da Humanidade!

Se eu não fosse temente a Deus,
Perguntava-Lhe, humildemente:
Senhor, porque são os filhos teus,
E sempre os mais pobres e aflitos,
A pagarem benesses aos ricos?

Sim, perguntar-Lhe-ia eu:
Porque são sempre esses,
A pagar a tanto figurão,
Cercado de mordomias,
Que vive do alheio, todos os dias,
Sem haver para isso uma razão?

Penso nisto, Senhor,
Do fundo do meu coração,
E creio que não esteja bem!
Porque há os que não têm o coração no peito,
Mas sim na palma da mão,
Onde lhes dá mais jeito…

E a minha mágoa aumenta de dureza,
Quando um Elemento da Natureza,
Como é a Água, possa ser oferecido,
Sem razão nem sentido, a cidadãos
Que juram que ela, em suas mãos,
Vai ser tratada e distribuída com equidade,
Na plenitude da liberdade!

E dizem mais, esses malabaristas:
Dizem que os surfistas
Terão sempre as ondas do mar,
Para surfar.
E que nos campos golfistas,
Não faltará, também,
A água dos lençóis freáticos,
Guardada no ventre da Terra-Mãe,
Há milhões de anos,
Para poderem praticar o golfe,
Com engenho e arte, sem enganos...

Enquanto dizem ao povo humilde,
Que a chuva é, de facto, uma dádiva de Deus...
Mas que não tenham receio de ficar sem água,
Porque eles tomarão as medidas necessárias,
Normais e extraordinárias,
Gastando os seus dinheiros,
Com sábios técnicos e engenheiros,
Para que a água não falte no mar,
Nem nos rios, nem nos ribeiros...

Tão poluídos que estão eles e o ar,
Coisa que não querem que aconteça.
E, por isso, a água deve ser sua pertença,
Porque são eles que a sabem cuidar…

Ora, Senhor, isto custa-me a suportar,
Sem que se apodere de mim uma revolta, sem fim,
Que me faz desesperar.
Ao ver tamanha desfaçatez,
Que me provoca, por sua vez,
Uma mágoa que não passa.
Porque a água, Senhor,
Dá-La Tu, a eles e a todos, de graça!
E, por isso, deve ser de toda a Humanidade.

E por todos repartida,
Com amor e equidade.
Porque sem água não há vida,
E sem vida não há Humanidade!

Mas, Senhor,
Fazer compreender isto ao agiota que passa,
Só com a Tua divina graça.
Porque ele quer tudo,
Sem se importar com a desgraça,
Dos desprotegidos da raça humana.

E pior que tudo isto, Senhor,
É ele pensar que até a Ti engana!...

In: Livro "O acordar das emoções" - Tartaruga Editora

 

22 de Março – Dia Mundial da Água

terça-feira, 21 de março de 2017
A chegada das Andorinhas

Ei-las, que são chegadas,
As astutas andorinhas!
Vêm de muito longe,
Regressam cansadas,
As esbeltas avezinhas.

Velozes, passam e repassam,
À minha frente, chilreando.
Como se fora um cumprimento,
A quem as está esperando.

Foi longa a sua viagem,
Conhecê-la quem me dera,
Trazem uma mensagem:
Vai chegar a Primavera!


João de Deus Rodrigues - 1974



O Regresso das Andorinhas!

 

Cantemos com alegria,
Já chegaram as andorinhas,
Chilreando sua alegre melodia.

Esvoaçando, batendo a asa,
Alegraram o bom momento,
De as ver regressar a casa,
Onde foi seu nascimento.


In Livro "O acordar das emoções" - Tartaruga Editora

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publicado às 21:02


Um Conto de Natal

por aquimetem, em 21.12.16

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Do livro "NEM SEMPRE OS PINHEIROS SÃO VERDES", transcrevo um conto de Natal da autoria do poeta e prosador João de Deus Rodrigues. Uma rica prenda de Natal  para ler nesta quadra:

(O Natal no Nordeste Transmontano e os rebuçados do céu…)
Na maioria das aldeias do Nordeste Transmontano, o mês de Dezembro era considerado um dos nove meses, ditos de Inverno. As noites eram monótonas, longas e frias, e os dias, rotineiros e gelados, com vento e com chuva.
As casas de habitação não tinham electricidade, nem água canalizada, nem qualquer tipo de aquecimento. Restava apenas a fogueira na cozinha, ao redor da qual as famílias passavam os serões à luz da candeia, a ouvirem o silvar do vento e a chuva e a neve a caírem nos telhados, enquanto os pais contavam “estórias” e lendas aos filhos, ou olhavam para os gatos, a ronronar a seus pés, quando não estavam nos palheiros a murar ratos, e as mães fiavam a lã e o linho ou faziam os meiotes e remendavam a roupa da família, habitualmente numerosa.
Outras vezes, rezavam todos junto à lareira por alma dos seus mortos, ou cantavam de alegria quando nascia mais uma criança que vinha aumentar o agregado familiar e a ser mais um lavrador ou pastor, ou uma esposa e dona de casa, dedicada.

Nas aldeias não havia rádios nem televisões, e quanto a livros só havia o Missal na igreja, e poucos mais. Mas também não eram necessários, a maioria das pessoas não conhecia uma letra do seu tamanho, como diziam com mágoa: “ eu nunca entrei numa escola e não conheço uma letra do meu tamanho!”.
Havia anos em que as pessoas passavam dias seguidos em casa, porque a bufarra (nevoeiro), o gelo e a chuva a isso as obrigava. Nessa altura, os rebanhos ficavam nas curriças, onde os pastores os iam alimentar com palha, e os lavradores ficavam em casa preocupados, a deitarem contas à vida: “com o tempo assim, vai ser outro ano de fome!”.
Também os nevões caíam com regularidade, e depois, a seguir a eles, o gelo e o cacimbo deixavam o carambelo pendente dos beirais dos telhados, onde os garotos o quebravam e comiam, como sendo o melhor “Gelado” do mundo, coisa que eles não conheciam…
Nas escolas não havia qualquer espécie de aquecimento e os alunos, muitos descalços e mal agasalhados, choravam com o frio e o professor mandava-os para casa para se aquecerem à lareira, se havia lenha para a acender.
À noite, das serras e dos montes desciam lobos esfomeados aos povoados, e nem cães nem gatos que vagueassem pelas ruas lhes escapavam. A fome é negra, comer era uma necessidade vital.
Contudo, no meio deste abandono e solidão o mês de Dezembro era o mês do ano mais esperado pelas populações das aldeias. Isto porque, para além de ser o mês do Natal e da matança do porco, também era quando chegavam os familiares ausentes, que vinham passar o Natal com a família e matar saudades da santa terrinha. Esses sentimentos que, desde a diáspora, sempre prenderam os transmontanos às origens...

Nesse ano, a Maria da Céu “andava de esperanças” (grávida) do terceiro filho. Filha de pais católicos e sobrinha de padre, em casa dos pais o Natal era passado em família e comemorado intensamente, sem, contudo, haver sapatinhos na chaminé. A lenda do pai natal, essa criação do “tio Sam”, ainda não era conhecida por aquelas bandas…
Porém, ao serão não faltavam cânticos ao Deus Menino, cantados com fervor e fé junto da lareira onde o fogo crepitava, e à mesa se sentavam pais, filhos e criados, sem distinção. Sendo que o rapaz mais novo, sentado à mesa, era o que dava graças a Deus (rezava) pela refeição servida, no início e no fim da ceia de Natal.

A Maria do Céu vinha dando à luz de três em três anos. A causa provável disso acontecer talvez fosse o facto de amamentar os filhos nos primeiros dois anos.
O primeiro filho nasceu no mês de Agosto e o segundo no mês de Julho. E este, o terceiro, esperava-o, segundo as suas contas, para finais de Dezembro. Por isso, pedia a Deus que nascesse na noite de Natal!
Que felicidade seria a minha, se depois da ceia fosse à Missa do Galo e quando chegasse a casa sentisse as águas e viesse a Dona Eugénia para o ajudar a nascer, são e escorreito, e depois de lhe dar banho mo pôr no colo para eu lhe dar de mamar…
Fazei isto, Senhor, se eu o merecer, rogava ela a Deus! E prometia-lhe: se for menina vai-se chamar Esperança, se for menino vai-se chamar João…
Mas Deus não lhe fez a vontade. Por isso, no dia de Natal, “mesmo de barriga à boca” (grávida), preparou a ceia. Acendeu a lareira e colocou junto dela dois potes de ferro. Dentro do mais pequeno cozeu o polvo, e dentro do maior cozeu o bacalhau, os tronchos de couve portuguesa, as batatas e os rábanos.
De seguida, amassou a farinha para as filhós e partiu o pão para as rabanadas. Filhós e rabanadas que, com o polvo, eram os acepipes principais da ceia de Natal, na casa dos lavradores, em Trás-os-Montes.
À tardinha, composta a mesa, a família sentou-se à sua volta e ceou. Depois, finda a refeição, cantaram todos ao Deus Menino as canções de Natal que passavam de geração em geração:
Já se ouvem os clarins,
Dos anjos e serafins,
Que Deus enviou à terra,
Cercados de paz e luz,
Para anunciarem ao mundo,
O nascimento do Seu Filho,
O Menino Jesus.

E junto à manjedoura,
Num estábulo em Belém,
Já se encontram pastorinhos,
E outra gente, também,
Em frente Dele,
E de Maria, sua mãe,
Cantando alegremente:

“Olá, meu Menino,
Como Tendes passado,
Só para Vos ver,
Deixei o meu gado.”

Isto prolongou-se até próximo da meia-noite, altura em que o sacristão tocou os sinos, ecoando na noite escura, para chamar a população da aldeia para a Missa do Galo.
E foi então que a Maria do Céu, o marido e os filhos se encaminharam para a igreja, para assistirem à Missa do Galo e beijarem o Menino Jesus, que o padre Francisco foi buscar ao Presépio para o dar a beijar aos presentes, que, em silêncio, o beijaram com tanta devoção como se fosse o Deus verdadeiro.
Findas as cerimónias religiosas regressaram a casa. A noite estava tão serena como a Maria do Céu a tinha imaginado, quando pediu a Deus que lhe desse o filho nessa noite de Natal.
O vento tinha amainado e a neve caía em silêncio nos telhados e nos campos, dando a impressão que os anjos tinham descido sobre eles e os tinham coberto com um imenso lençol branco, de linho, em homenagem ao nascimento de Jesus.
Na aldeia o silêncio era absoluto. Agora só de longe a longe se ouviam cantar os galos, porque eles sabem a música de cor. Pensava para si a Maria do Céu quando, já deitada, encostava a barriga ao marido para que ele sentisse o filho a dar-lhe um pontapé…
Filho que só viria a nascer três dias mais tarde, no dia 28, num sábado solarengo, para quem a Maria do Céu, cumprindo a promessa feita a Deus, pediu ao marido que lhe fosse dado o nome de João. O que veio a acontecer, quando o padre Francisco o baptizou a seguir, no domingo de Páscoa.

João que, nove anos depois, quando o professor mandou sair mais cedo os alunos para irem ajudar a fazer o Presépio, correu para casa e disse à mãe:
- Mãe, já começaram as férias do Natal! Dê-me de comer que quero ir buscar musgo para o levar à igreja, à minha madrinha, para fazermos o Presépio. Olhe que já faltam poucos dias para ser o Natal e para nascer o Menino Jesus…
A mãe, ao vê-lo com tanta ansiedade, disse-lhe:
- Então come alguma coisa antes de saíres, e agasalha-te bem porque está frio e podes constipar-te.
E respondeu-lhe ele, eufórico:
- Ó minha mãe, eu não tenho frio! A senhora não vê que o Menino Jesus está couracho (nu) no Presépio, junto de Nossa Senhora e de São José, e da vaca e da burrinha, e não tem frio?...
E diz-lhe a mãe:
- Isso é verdade, meu filho, mas tu não és o Menino Jesus…
- Pois não minha mãe, mas também não tenho frio…
O João saiu de casa a correr e foi procurar musgo ao tronco dos olmos, ao Ribeiro dos Inverniços, e levou-o à madrinha, que já se encontrava na igreja a ajudar o padre Francisco a fazer o presépio.

O João andava feliz e contente. Agora, apenas esperava que chegasse o dia e a noite de Natal. Primeiro, para comer as filhós, as rabanadas e o polvo. Segundo, para ir à Missa do Galo e beijar o Menino Jesus. E depois, quando chegasse a casa, ir-se deitar e ver entrar no seu quarto o Menino Jesus, quando lá fosse levar os rebuçados do céu. Mas este segredo nem à mãe o tinha revelado…
Nessa noite, depois da ceia e dos cânticos ao Deus Menino, o João foi com os pais à Missa do Galo e quando chegaram a casa foi para o quarto e deitou-se, mas não adormeceu logo…
O dia e a noite de Natal eram especiais para toda a gente. Porém, a noite tinha uma magia muito especial para as crianças, porque esperavam que o Menino Jesus fosse ao quarto deles levar os rebuçados do céu, por que isso era a prova de que não tinham mentido aos pais nem ao professor.
De manhã, quando acordavam, encontravam os rebuçados espalhados pelo chão e corriam para os pais, a dizer:
- Ó meus pais tomem lá um rebuçado do céu, que o Menino Jesus me deixou no meu quarto…
Os pais e os irmãos mais velhos, se os havia, não se desmanchavam e aceitavam o rebuçado, mantendo-se assim o segredo da tradição na aldeia.
Tradição essa, que passava de geração em geração até que os filhos descobriam que quem lá ia levar os rebuçados eram os pais e não o Menino Jesus. E, então, quando isso acontecia era uma desilusão enorme para eles. Primeiro, por que se sentiam enganados pelos pais. Segundo, por lhes roubarem esse sonho, tão lindo, de uma noite verem entrar o Menino Jesus no seu quarto, acabando assim a magia dos rebuçados do céu.

O João ainda acreditava nos rebuçados do céu. O pai, algum tempo depois de ele ter ido para o quarto, julgando que já dormia, pegou nos rebuçados que tinha comprado na vila, para serem diferentes dos que se vendiam na taberna da aldeia, e dirigiu-se ao quarto dele, com mil cuidados e abriu a porta e espalhou os rebuçados no chão. Mas quando já estava de saída, qual não foi o seu espanto quando vê o filho a saltar da cama e a dizer para ele:
- Então o pai é que é o Menino Jesus...
O pai, embaraçado, pediu-lhe desculpa e disse-lhe o mesmo que já tinha dito aos irmãos, em circunstâncias iguais:
- Desculpa, meu filho, por te ter enganado. De facto, quem tem cá vindo a deixar os rebuçados tenho sido eu, e não o Menino Jesus…
E para minimizar o choque do filho, quando o viu a chorar, acrescentou:
- Sabes, meu filho, o Menino Jesus não tem tempo para ir ao quarto de todas as crianças do mundo que se portam bem e não dizem mentiras. Pergunta aos teus irmãos se não foi também assim com eles… E olha que já o teu avô me fez a mim a mesma coisa…
O filho, triste, olhou para o pai mas não tocou nos rebuçados, correu para a mãe a chorar e disse-lhe:
- Mãe, o Pedro tinha razão quando me disse que eram os pais que deixavam os rebuçados no quarto dos filhos e que não era o Menino Jesus, mas eu não acreditei nele…
A mãe, abraçada a ele, deu-lhe um beijo e disse-lhe:
- Sabes, meu filho, todos os pais fazem isto aos filhos, até que eles descobrem, como tu, que não é o Menino Jesus que lhe traz os rebuçados. Mas deixa lá, não chores. Não é por isso que Ele não gosta de ti! Agora vai dormir e não penses mais nisso, o teu pai gosta de ti e não o fez por mal.
O João regressou ao quarto e adormeceu, mas o desgosto ficou com ele. A partir desse dia fez os trabalhos escolares, que o professor lhe tinha mandado fazer em casa, e no dia sete de Janeiro voltou para a escola, mas apareceu de semblante triste. Então o professor, ao vê-lo assim, perguntou-lhe:
- O que se passa contigo, João? Vens tão triste!... Não fizeste os trabalhos de casa, como te mandei, foi isso?
E ele respondeu-lhe:
- Não é por causa disso, senhor professor. Eu fiz os trabalhos todos, mas na noite de Natal quando estava no meu quarto à espera de ver entrar o Menino Jesus com os rebuçados do céu, quem lá foi pô-los foi o meu pai…
Dizia isto ao professor de olhos pregados no chão, prestes a chorar.
O professor conhecia a tradição e ficou embaraçado. Sem saber o que lhe dizer, pediu-lhe que lhe mostrasse os trabalhos de casa. Ele foi mostrar-lhos, e o professor passou os olhos por eles e deu-lhe um “B” grande e disse-lhe: parabéns João, estão muito bem!
Tu és bom aluno, vai-te sentar.
Ele viu escrito, a encarnado, o “B” grande no topo das páginas e foi-se sentar.
Os alunos mais velhos já sabiam que era assim que acontecia. Os mais novos, esses, continuaram a acreditar que era o Menino Jesus.
Definitivamente, para o João findou esse sonho, tão lindo, de uma noite de Natal ver entrar no seu quarto o Menino Jesus com os rebuçados do céu. Agora já sabia quem o fazia…
Apenas não sabia que, se um dia fosse pai, nas noites de Natal ia fazer aos filhos o mesmo que o pai lhe fez a ele, até que fosse apanhado com a boca na botija e um filho saltasse da cama a dizer: então, o Menino Jesus é o meu pai!…

Os anos foram passando. Em todos houve um dia e uma noite de Natal. A Maria do Céu teve mais quatro filhos, sete ao todo. Para ela, alguns dias de Natal foram alegres, outros foram tristes. Muito tristes! Longe eclodiram guerras e para uma delas foi enviado o seu filho João, onde viria a falecer no dia vinte e três de Dezembro.
No dia seguinte apareceu em casa um sargento do Exército a levar a notícia de que“ o soldado João Almeida tinha morrido numa emboscada, em Moçambique, e em nome do Exército apresentava condolências e informava que o seu corpo chegaria brevemente ao Continente, para ser entregue à família”.

Nesse ano, em casa da Maria do Céu já não houve ceia de Natal, nem se cantaram canções ao Deus Menino. E na mesa da cozinha ficou vazio o lugar que mais ninguém ocuparia.
A partir desse dia, em sua casa a harmonia e o sossego familiar alteraram-se, profundamente. Primeiro, com a morte do filho, na guerra do ultramar, depois, com a do marido, que não resistiu à morte do filho. E, finalmente, com a solidão.
Viúva, os desgostos da vida e os anos a pesarem levaram-lhe a felicidade e a paz de espírito, até ao fim dos seus dias. Embora os filhos, enquanto viveu, fossem todos os anos, com as famílias que constituíram, passar o Natal a casa dela.
Eles estiveram sempre ao seu lado, porque ela foi uma boa mãe. “Ai de quem toque nos meus filhos, nem que seja com uma flor”, dizia ela, quando se referia a eles.

João de Deus Rodrigues.

In: Livro “NEM SEMPRE OS PINHEIROS SÃO VERDES” – Poética Edições

 

 

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publicado às 15:36


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