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Por: Barroso da Fonte

“Na reunião de Câmara da 3ª semana de Outubro, Rui Moreira, Presidente da autarquia do Porto, manifestou discordância, relativamente à estratégia de promoção usada pela Entidade Regional de Turismo do Porto e Norte (ERTPN), de «um Portugal bucólico, vendendo o Porto como cidade do Galo de Barcelos e do Fumeiro». E disse ainda que esta entidade irá criar uma agência de promoção externa, o que, em seu entender, colide com as atribuições da Associação de Turismo do Porto (ATP), por ele próprio liderada» Leu-se isto no JN de 22 de Outubro. Américo Pereira e Miguel Costa Nunes, presidentes, respetivamente, das Câmaras de Vinhais e de Barcelos, não gostaram. O Transmontano acusou Rui Moreira de «parolice» e o Barcelense respondeu que RM era elitista e que tal postura era «pedantismo atroz». O JN do dia seguinte deu voz ao autarca de Barcelos que acusou Rui Moreira de que «pior do que o centralismo de Lisboa, é o centralismo do Porto». E em comunicado, Miguel Costa Gomes, afirma que «Rui Moreira «revela que não tem noção da importância dos 85 municípios na promoção do Porto e Norte de Portugal».

Confesso que não conheço pessoalmente o Presidente da Câmara do Porto, mas tenho vindo a apreciar a sua postura política e social. Contudo, quando alguém menoriza a minha Terra, neste caso Trás-os-Montes, tem-me à perna, porque, seja lá quem for, Trás-os-Montes e os Transmontanos, não recebem lições de ninguém, a não ser dos professores quando ensinam e dos técnicos enquanto formadores. Sempre Trás-os-Montes e os Transmontanos foram vítimas do centralismo. E, já é tempo de esquecer a linguagem que prevaleceu durante séculos, usada pelos tempos fora, contra os os «tais parolos», que, à falta de argumentos, nos chamam, ainda que disfarçadamente.

Aquilo que Rui Moreira disse dos Nortenhos na reunião de Câmara, provocou um mal-estar que Barcelos e Vinhais já reprovaram e que eu próprio, enquanto Transmontano, enquanto ex-autarca promotor da Zona Turística de Guimarães e enquanto sócio fundador nº 1, da Casa Regional dos Transmontanos e Alto Douro do Porto, não posso silenciar. O povo diz que «quem cala consente». E que «quem não se sente não é filho de boa gente».

O autarca de Barcelos disse (e eu próprio corroboro) que «pior do que o centralismo de Lisboa, é o centralismo do Porto». Quando se batizou a Invicta como «capital do norte», com Barcelos, Braga, Guimarães e toda a Província de Trás-os-Montes e Alto Douro» justificavam esse pomposo nome. Senão fosse este norte real, o Porto, só por si, não poderia ser capital de si própria, como cidade.

Desde que Portugal nasceu no Portuscale, teve necessidade de agasalhar-se contra o inimigo que chegava pelo mar e pela foz do Rio Douro, transferindo o burgo para Guimarães. Foi Mumadona Dias. Daqui apenas saiu para Coimbra, em 1131. O Vinho do Porto dá nome ao produto das vinhas das margens do Douro que é mais Transmontano do que portuense. São meros exemplos de como o Porto, para ser a grande cidade que é, sempre prosperou à custa do Minho e de Trás-os-Montes. Chamar «bucólicos» ao Galo de Barcelos e ao Fumeiro de Barroso, de Vinhais, de Mirandela, de Boticas ou de Chaves, no sentido depreciativo, é uma infâmia para quem aqui nasce, daqui não sai ou, se sai, aqui volta, sempre, com a mesma fé, o mesmo respeito e o mesmo amor cívico pelo chão que embalou tantos e tão honrados filhos.

Permitir que um qualquer político, técnico ou burocrata, nascido ou bem reconfortado urbanista, parasite do espaço geográfico e do labor de milhares de cidadãos que honestamente trabalham o pão, o «fumeiro» e tudo aquilo que daqui sai para abastecer quem vive na cidade que tão mal agradece, é uma ofensa à dignidade de gerações que sempre foram tratadas como escravas.

O Dr. Rui Moreira - que repito,considero como homem de estatura cívica, cultural e política - foi infeliz. Os Transmontanos e os Minhotos não merecem que os trate, depreciativamente, como bucólicos, nem mercadejares de fumeiro. Além deste produto que é genuíno, é excelso e é sedutor, os transmontanos trabalham, nas suas terras e com o suor do seu rosto: o presunto, a batata, todo o tipo de legumes, a castanha, a maçã, a cereja, a pera, o centeio, o azeite e o vinho mais famoso da Lusofonia: o moscatel de Favaios, o vinho dos mortos de Boticas e o néctar do Douro, reforçam mundialmente, alma do Porto. Bastaria esta dádiva Duriense que é o Vinho do Porto para que nunca mais, seja quem for e onde for, erga voz, o gesto e a ideia de minimizar Trás-os-Montes e os Transmontanos. Do mesmo modo, os Minhotos. Nunca se esqueçam de que, em 868 nasceu o primeiro Condado Portucalense que durou até 1071; que foi restaurado em 1096 e que, apenas se desconfigurou para melhor, na batalha de S. Mamede, em 24 de Junho de 1128, em Guimarães. Esse condado estendia-se, apenas, entre os Rios Minho e Douro. Trás-os-Montes já tinha soldados, já tinha chão e sortilégios (talvez o fumeiro) de que o Porto, para manter sempre viva a sua História, sempre precisou. Não foi D. Pedro de Pitões, nascido nesta aldeia Barrosã, aí formado, no Mosteiro de Santa Maria de Pitões, ainda visível, mais tarde nomeado Bispo do Porto que convenceu os cruzados a participarem na conquista de Lisboa e os acompanhou na luta contra os sarracenos? Como se pode constatar desde os primórdios da nacionalidade os Transmontanos não eram parolos, nem bucólicos. Talvez fosse o Porto a crescer à sombra dessa nobre e sofredora gente que hoje não aceita lições de quem vive no «véu de ignorância» de que fez teoria de Justiça John Rawls”.

 

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publicado às 22:24



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