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Por: Barroso da Fonte

"Bordalo Pinheiro caricaturou, durante muitos anos da sua vida, algumas figuras humanas. Depois dele, tivemos cartoonistas que antes e depois da geração dos cravos, muitos figurantes da cena política, foram zurzidos de todas as formas e feitios por seguidores dessa arte caricatural.

Quando se pretende galhofar com este ou aquele, por isto ou por aquilo, por gestos, formas ou simples palavrões, um ou outro bípede da sociedade a que pertencemos, aparece com o nariz distorcido, com bigodes encaracolados, com um ou outro apêndice que altera a fisionomia

do ridicularizado. Nuns casos para humilhar, noutros para engrandecer. Há gostos para tudo.

O engenho e a arte podem fazer do granito um «santo» de altar, como escreveu o Padre António Vieira; como podem transformar um herói num pobre diabo. As cerâmicas das Caldas, de Vilar de Nantes, de Bisalhães e outras, já deram barro para muitas distorções e inspiração para rotular de burros, alguns génios e também para «fabricarem» génios de verdadeiros asnos.

A crise económica que invadiu a Europa e que atingiu países débeis como a Grécia e Portugal, tem raízes extensas que chispam com inversão dos valores supremos, como a ética, a cidadania e a cultura propriamente dita. Um exemplo fresco e suficientemente claro:

Faleceu dia 21 de Setembro de 2013, no Porto, o Doutor António José de Brito. Tinha 86 anos e foi docente na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, onde nasceu e viveu. Autor de uma vasta e qualificada obra na área da Filosofia, tinha a coragem de se considerar um «fascista totalitário à direita de Salazar». Foi discípulo de Alfredo Pimenta (1882-1950), cujo percurso doutrinário eu próprio condensei no trabalho académico: «Alfredo Pimenta: da práxis libertária à doutrinação nacionalista (2005)». Não conheci pessoalmente este talentoso pensador das últimas décadas. Mas dele recebi uma gratificante carta de elogio à dissertação que durante os cinco anos curriculares obrigatórios preparei na UM (que por razões de saúde não defendi mas que editei e se encontra nas bibliotecas do depósito legal). Teve uma edição de 500 exemplares que logo esgotou e uma 2ª que veio a público em Maio deste ano.

Desço a este pormenor para lamentar que os órgãos de informação, desde a RTP à Lusa, desde a imprensa Regional às revistas da especialidade, ostensivamente tenham silenciado este pensador dos mais esclarecidos da sua geração, apenas pelo facto de ser um intelectual da extrema direita. Tive o cuidado de ler o Expresso e afins. Fiquei decepcionado. Na sua edição de 27/9 no rubrica obituário, apareceram lá 7 linhas de uma única coluna. Mexi e remexi. Nada mais. Reparei contudo no caderno ACTUAL nº 2135 dessa mesma data. E que vi lá? Uma foto do poeta Ramos Rosa que mereceu essa capa e mais 4 páginas inteiras, assinadas por Valdemar Cruz, mais uma espécie de editorial com a assinatura de Hugo Pinto Santos. Como «os burros se coçam uns aos outros», mais estupefacto fiquei quando reparo que as páginas 8, 9 e 10, desse mesmo caderno, subscritas por Clara Ferreira Alves. Foram dedicadas, ao «Gnomo na Jardim » vendo-se o pivô da televisão publica, José Rodrigues dos Santos, comodamente assentado e mediaticamente exposto, com a astuta CFA a escrever: «José Rodrigues dos Santos acha-se injustiçado por «um grupo de intelectuais que acham que a escrita experimental é a única literatura possível e autorizada e que tudo o resto vai para o índex da Inquisição literária». Acha-se injustiçado por dizerem que a televisão o tornou conhecido. Acha-se injustiçado por lhe chamarem o nosso DAN Brown». Uma verdade do tamanho dos ecrãs que «fabricaram» esta roleta de semear relva nos campos de futebol.

O poder político que temos tido, desde o 25 de Abril, tem culpas no cartório. Todos. Cada um procura despachar, favoravelmente, a criação de universidades, de institutos públicos e privados, escolas superiores, fundações...Rara é a cidade que não tem um pólo, uma extensão, um pátio, uma escola primária desactivada, a servir de palco a aulas de ensino superior, com docentes, cuja formação assenta em critérios políticos que não académicos. Qualquer ex-governante mesmo que não tenha feito obra, é convidado para docente. Esse tipo de regentes do ensino superior continua a povoar lugares no ensino (público e privado), sabendo-se que há hoje milhares de doutores e de mestres que nem sequer têm lugar no ensino secundário.

A par desta praga chegou o «assalto» às administrações dos principais órgãos de informação. Os regionais vão caindo como moscas. Os nacionais arribam aos grupos consertados com o poder judicial, empresarial e político. A liberdade de imprensa acaba onde começa o lucro e o interesse do chefe dessa banca de interesses conjugados. Em três décadas extinguiram-se centenas de jornais regionais que eram a voz da consciência cívica. Restam os canais televisivos e radiofónicos (públicos) que parasitam dos contribuintes e das publicitárias, pertencendo a esses canais de informação a tarefa de promover ou destituir políticos, técnicos e vozes lúcidas, em proveito da máfia que gravita em torno das contestações e da guarida que recebem em cada sino que toca. E que dizer do Plano Nacional de Leitura? Quem lidera essa máfia, quem decide, quem formula os critérios, quem elege os felizardos e que informação transpira para a opinião pública?"

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publicado às 10:38



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