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Onde até as pedras produzem pão

por aquimetem, em 26.04.16

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De Barroso da Fonte:

Escrevo esta crónica no dia em que leio num dos jornais da minha terra: «...como a imaginação não tem limites, se me garantirem a compra de vestuário para oferecer aos funcionários municipais, daremos início à produção de meias, calças, camisas, camisolas e quispos. Tudo com a marca alusiva a Montalegre. Claro está que se alguns dos nomes aqui referidos, já tiverem sido registados por alguém, facilmente encontraremos outros nomes alusivos à nossa terra».
Com este raciocínio Bento Monteiro pretende atingir uma nova forma de ganhar a vida. Como o chão onde isto se passa é agreste, infecundo, planáltico e o clima tem nove meses de inverno e três de inferno, o engenho e a arte de ganhar a vida, exigem que o homem tire da terra que lhe serve de berço, o sustento para a sobrevivência pessoal e familiar.
Reporto-me às terras de Barroso que Ferreira de Castro caracterizou num dos seus mais conhecidos romances, como «Terra Fria». Andou por ali, em 1934, quando o poder político ainda só conhecia essa zona fronteiriça do norte de Portugal, pelas serras do Gerês, Mourela, Larouco e Cornos das Alturas. E também pelos Rios Cávado e Rabagão. Enquanto à beira-mar predominam os vales, as lezíria e as encostas que dão fartura, nas Terras do Demo, das bruxas e o fumeiro, os poucos vales que davam pão centeio e batata da melhor do país, as barragens hidroelétricas dos Pisões, da Venda Nova, Paradela, Salamonde e Caniçada chegaram na segunda metade do século XX, obrigando os seus habitantes a entregar o pouco que tinham, para que reter as águas, contra umas dezenas de escudos que mal deram para refazer a vida no Minho ou no estrangeiro?
Duas décadas depois, milhares desses e de outros desafortunados, sujeitaram-se aos perigos da emigração e, juntamente com a geração do sacrifício que recrutou os jovens para a guerra de África, apressaram a desertificação generalizada. Em menos de meio século o concelho de Montalegre, onde vim ao mundo, passou de 35 mil para dez mil habitantes. Pelo ritmo que a política mostra, este segundo maior concelho do país, em extensão geográfica, desaparecerá do mapa de Portugal, no próximo meio século.
Os gestores políticos, à míngua de bens materiais a inovar, entraram numa onda de apropriação e de acautelamento do futuro, descortinou uma nova forma de vida. Cada protagonista cuidou de registar, em nome próprio, de família ou de grupo, pontos geográficos, comeres e beberes que entraram nas rotas da fama. E, antes que outros o façam, fazem-no alguns mais ousados e menos escrupulosos. Na área da gastronomia já foram patenteados nomes na área da gastronomia, como o «cozida Barrosão», do turismo, da bruxaria e até do «Vinho Padre Fontes».
Como Frei Bartolomeu dos Mártires reclamou que – ao menos - os Padres de Barroso pudessem casar, ora pelo isolamento, dificuldades de acesso ou aumento de população ativa, ora, pelo rigor do frio, também, quinhentos anos depois, se abrem excepções no aproveitamento e posse de bens comuns. Até a Serra do Larouco que já foi ara de deuses pagãos, começou por merecer acesso da volta a Portugal, em bicicleta. Entre a vila e os 1.525 metros de altitude, há restaurantes e casas de turismo de habitação que coincidiram no espaço e no tempo. Para essas já se haviam construído a pista do RallyCross e o altar-mor do Parapente. Pensou-se que esse trajecto turístico seria de entrada e de saída por lugares distintos. Beneficiaria mais do que uma aldeia, a saber: Gralhas, Santo André, Vilar de Perdizes, Meixide e Meixedo. Mas a Câmara é pobre, o dinheiro comunitário, chega em catadupa, para casas de Turismo de habitação, não para quem o merece mas para quem é reguila. E os Barrosões, perante a bondade política, continuam a « fazer vénias quando passa a procissão» como Miguel Torga anteviu nos seus diários.
Para que não digam que sou má língua, retomo o raciocínio de Bento Monteiro para com ele me questionar se, numa altura em que já não há muitos ângulos geográficos ou paisagísticos para registar, como potenciais sítios de sucesso turístico, lendário ou gastronómico, não seria boa ideia criar «três marcas de queijo de Montalegre, queijo da Mourela e queijo nascente do rio Cávado; duas marcas de vinho: Ponte da Assureira e vinho de Barroso; duas marcas de cerveja: artesanal Mosteiro de Pitões e água da Mijareta» Tudo isto implicará sempre o «Presunto de Barroso».
Penso que Bento Monteiro não se lembrou de propor a criação de um gabinete de registos, não só para apoiar o desenvolvimento dessas marcas, como para dar formação a ciclistas, a pilotos de RallyCross, e a treinadores para praticantes de parapente, de motonáutica e outros.
Um outro Barrosão que escreve no quinzenário que me inspirou esta crónica, que nasceu e está vinculado a Gralhas, como o demonstrou na sua última obra literária que dedica a essa histórica freguesia, tem receita apropriada para dar cobertura a esta onda de projectos orográficos, pedestres, velocipédicos e gastronómicos. Chama-se Domingos Chaves e, em «politicamente falando», escreve que: «este é o mundo desconcertado que temos pela loucura do dinheiro que vai todos os dias semeando pobreza, fome e morte».
A alegoria que o tema despertou, faz-me recuar aos anos cinquenta do último século, quando os lavradores da minha aldeia, alugavam uma camioneta de carga para irem buscar vinho «à Ribeira».
A pureza de Barroso, o frio e o fumo são ingredientes que transformam, como nas Bodas de Caná, qualquer mistela, em delicioso manjar, seja comida ou bebida. Porque em Barroso até as pedras produzem pão...

 

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publicado às 12:41



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